Auto reverse

Ela temia magoá-lo. Ele magoou-se por saber que ela temia fazê-lo.

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Em cada fuga

Chego em casa ainda perdido do calor das ruas, da confusão do trânsito, das vozes das pessoas. Repouso por um instante meu corpo na cama e sinto um cansaço vulgar se abater sobre mim, transbordando por cada poro, até preencher todo o quarto. Tenho infinitas mãos dentro da minha cabeça, a escavarem inquietas a memória de outros dias, de outros tempos, de todas as vidas que deixei de viver. Por isso costumo ter um sorriso cínico a tiracolo, preparado para disfarçar todas as páginas em que transpareço, todas as feridas pelas quais ainda sangro. Sempre escalo as altas montanhas do anoitecer antes de dormir. O lençol da cama desfeita é mais uma ruga em minha testa. Sou animal que se afoga sem procurar nenhuma margem na noite lenta. Pouco me importa. Pouco importam estas palavras e estas pálpebras teimosas. Quando o cansaço é maior que qualquer coisa, bato os braços como asas, como se fugisse de mim mesmo. Lentamente, vão se apagando todos os meus nomes. Desfaço-me ao longe, por vezes. Há dias em que chego ao quarto e a última coisa que quero é pensar. Em mim, nos outros, em tudo. Por isso estou sempre a tentar me distrair. Por mais inútil que possa parecer a ideia, porque nenhuma distração dura o suficiente. Apenas intervalos de tempo, assim como os pequenos momentos em que adormeço. Pena que uma parte de mim sempre se perde em cada fuga.

“Que há dentro deste ser, que não tem limites? Que há dentro deste ser de real e verdadeiro? Cada um assume proporções temerosas. Caem lá dentro palavras, sentimentos, sonho – é um poço sem fundo, que vai até à raiz da vida. À superfície todos nós nos conhecemos. Depois há outra camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguém sabe do que é capaz, ninguém se conhece a si próprio quanto mais aos outros, e só à superfície ou lá para muito fundo é que nos tocamos todos como as árvores de uma floresta – no céu e no interior da terra. De mais baixo ainda vêm terrores, ânsias, desespero… A maior parte das criaturas não só se ignoram como não passam nunca da camada superficial.”

Raul Brandão in “Húmus”.

Enquanto argumento com os entretantos e todavias da vida. Enquanto fico a esperar milagres (mesmo não acreditando neles). Esbravejo, entristeço. Compro briga, digo palavras duras. Fecho a cara e os olhos. Mas a vida, às vezes, resolve-se por si só, para minha surpresa. Como um evento determinado. Como um lance de dados. Como um truque de mágico. Como a chuva que sempre cai em janeiro e, apesar do calor, deixa aquela sensação de alívio. Como se a vida gostasse de zombar de mim e me testar. Ver até onde suporto. Bem… eu não sei até onde suporto, mas continuo a andar. E mesmo que muita coisa mude em mim, eu me levanto. Eu amaldiçoo e agradeço. Eu choro e rio. Eu faço a barba, corto o cabelo e compro roupa nova. E volto a encarar as coisas de novo. Eu insisto. Quero acreditar. É tudo o que eu tenho. Lentamente, volto a me erguer. Como a criança que, aprendendo a andar, acabou de cair, mas levanta de novo. Aprendendo a ter esperança. Eu às vezes tenho muita esperança, sabe? Ao menos enquanto não tropeço e dou com a cara no muro novamente.

O grito

Silenciosamente
Sei que vago
Ando em círculos
Sem saber por que
Como se fugisse
Como se dançasse
Falo com as paredes
E elas me respondem
Que devo ser um louco
E acho até que eu sou
Mas já não me importo
Falo por querer

Aqui do meu quarto
Procuro disfarçar
Construo uma muralha
Que ninguém posso entrar
E possa ver como realmente sinto
E sinto tanto que até mesmo chego a me perder
Entre tantos gritos ecoando

Quero gritar
Todo o ar que existe em meus pulmões
Mesmo que seja
Até ficar rouco
Até restar bem pouco
Do que hoje existe em mim

Quem poderia me condenar?
Seria mesmo diferente?
Tem cada coisa o seu lugar?
Tem cada coisa o seu lugar?

A cabana

Às vezes parece que a vida nos deixa presos a um momento. Um instante. Um segundo invisível. Um pequeno lugar no tempo que nos parece tão bom e aconchegante que simplesmente não queremos sair de lá. É um não querer acordar de um sonho bom. Como encontrar uma cabana deserta em meio a uma nevasca. E nos abrigamos nela. Passamos a noite nesta cabana, totalmente alheios à terrível nevasca lá fora. Sãos e salvos. Mas isso é um problema, claro. Na manhã seguinte, a nevasca ainda estará lá. Um hora faltará cobertores, faltará comida, faltará água, faltará algo. E você vai precisar sair desta cabana imaginária. Precisará voltar a si. Tomará um fôlego, esfregará as mãos na esperança de se aquecer, ainda que somente um pouco, e saltará novamente no meio da tempestade, até encontrar o caminho de volta pra casa. Um dia você se perguntará se aquela pequena cabana ainda estará lá. Se resistiu à nevasca. Se salvou a vida de mais alguém. Se tem alguém que ficou preso àquele momento também. Como você um dia ficou.