Travesseiro

Juro que meus braços não terão preocupações e deixarei sempre um sorriso preparado para te receberes. Quero rir contigo. Abraçar-te em gargalhadas obscenas e que façam os vizinhos nos olharem enviesados. Quero ser a primeira coisa que os teus lindos olhos veem quando despertas pela manhã. Quero que tu me pegues e me desenroles como se a minha mão direita fosse a ponta solta de uma bola de lã. Solte-me deste silêncio que tenta me prender, vez ou outra. Quero tagarelar contigo, amenidades ou filosofias mundanas. Que o meu beijo te cause sempre a mesma vertigem e te faça flutuar do chão. Quero te dar vontade de me olhar, de me ler, de se ver em mim, refletida, correndo em minhas veias. Tire-me da frente desta tela branca e rodopie comigo pela sala. Desate os meus nós e me põe a chorar. Limpe o pó embaixo do nosso tapete enquanto espirramos juntos. Não quero ser imune, não sentir, não achar que a dor não me atinge. Um pouco de sangue, suor e lágrimas, por favor, que sempre nos fazem crescer e amadurecer. Nunca te disse. Mas às vezes, quando e enquanto tu dormias, eu colocava um travesseiro ao lado do teu e lá ficava um bom tempo. Tinhas a expressão mais bonita e tranquila em teu rosto. E o teu amor acenava de volta para mim.

Reinvenção, talvez?

É tempo de amadurecer. Vez em quando floresce esse tipo de pensamento, não é? E surge essa necessidade, essa urgência, eu diria, de começar de novo, do zero, tudo outra vez. De reinventar uma vida que possamos chamar de nossa. Nascer a cada instante. Engatinhar em cada descoberta. Aproveitar melhor os momentos e tirar alguma lição de tudo. Corremos o risco do clichê, é certo. Sempre corremos. Mas chega uma hora na vida em que a gente tem que parar de dar voltas e voltas e voltar sempre ao mesmo lugar. Cabe alguma mudança nisso tudo. E tudo conspira se tiver alguma ajudinha (é o que dizem, pelo menos). Por que não tentar? Mas tentar de verdade mesmo. Vamos pagar pra ver. O resto vamos deixar pra trás, tudo pra trás, mania besta essa nossa de ficar remoendo o mundo. Vamos nos preocupar menos com o que nos deixa ancorados em nós mesmos. Hoje não deve chover mais. Teremos agora o vento correndo livre pelos cabelos. E veremos o sol a brilhar e a nos lembrar que a vida, às vezes e apesar de tudo, pode ser até boa. Calma, tudo vai ficar bem, tenho certeza. Bom, certeza a gente nunca tem de nada, não é? Mas e daí? Vamos nos dar ao luxo. Vamos nos permitir. Sair da tal zona de conforto e vagar por aí sem rumo. Vamos parar pra ver as estrelas e perceber a nossa insignificância. Teríamos tanto pra conversar… Quero dizer, poderíamos. Tenho léguas de palavras enterradas dentro de mim, sempre buscando algum fresta nesse escuro mundo onde as guardo. Ah, você também tem? Que coisa, não? Nunca vou entender porque fazemos isso. Mas seria bem agradável conversar, botar pra fora, dividir. Conte-me algum segredo, um sonho, um vício, uma dor. Posso contar os meus e minhas, se você quiser ouvir. O tempo corre, eu sei. Mas se a companhia e o papo forem bons, podemos, quem sabe, abstrair toda essa pressa da vida, enchendo-a de momentos bem felizes.