Quando deito para dormir, as palavras me saem do travesseiro

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Bebo porque, em geral, não me suporto. Porque sempre preciso me encontrar e quase nunca consigo fazê-lo sóbrio: meu estado natural é por demais retraído, anulante, desinteressante. Há momentos em que tudo o que preciso é sair um pouco de mim, desse autocontrole inconsciente que me guia como um fantasma pela vida. Bebo para tornar o meu próprio mundo um tantinho mais interessante. Esperando algo acontecer, fazendo com que aconteça algo ou simplesmente para aumentar a intensidade de tudo o que me cerca e me toca e me impulsiona, bem ou mal. Toda sensibilidade escondida. Toda alegria estúpida. Toda tristeza engasgada.

Só para mim

Sentei-me à mesa e decidi que terminaria de escrever todas as cartas de amor que tinha deixado para trás. Metade já meio escritas e nunca terminadas. Todas devidamente pensadas e cheias da breguice natural que contamina as cartas de amor. Mas já não tenho para quem mandá-las. E então ouvi as músicas de sempre, aquelas que me confortam e que escuto quando a solidão vem dar “bom dia”. Há dias em que a solidão esmurra a porta insistentemente e grita como louca até que, por fim, cansado, abro a porta e ela me abraça, um abraço apertado e familiar. E depois li os poemas que sempre leio em voz alta e me senti pulsante por um sentimento que não sabia descrever. Às vezes tenho vontade de sussurrar “eu te amo” ao vento e deixar que ele se encarregue de entregar a mensagem. Nós nunca precisávamos de grande coisa para andar pelas ruas como se tivéssemos acabado de ganhar na loteria, não é? Era na simplicidade das pequenas coisas que nos encontrávamos. Foram elas que nos uniram. Até ao dia em que, sem sequer me dar conta, quis engolir-te com o meu egoísmo, a ti, a nós, aos nossos pequeninos e incríveis momentos, de uma só vez, e claro, tu já sabias e eu também devia saber. Isso não podia dar certo. Eu não podia nos querer só para mim.

Sísifo

“Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.”

Miguel Torga in “Diário XIII”.

Viver na efervescência. Levantar sempre, todos os dias, a cada instante. Não como se fosse o último, mas exatamente como se fosse o primeiro, com todas as suas implicações e expectativas. A pior coisa é não ter esperança. Mas e se? Não dá pra saber se numa esquina qualquer o grande momento da sua vida vai esbarrar em você. Não pensar no minuto passado. É menos um que se vive. Cada minuto é valioso demais.

Acostumar-se de mim

Não sei se tu prendes os cabelos ou se os mantém soltos num dia quente. Não sei se tu te sentas cruzando as pernas ou se fica de modo peculiar, colocando os pés um em cima do outro. Não sei se tu gostas da chuva. Não sei se gostas de sopa. Não sei se gostas de pimenta. Não sei se tens mania de limpeza ou organização. Não sei se te incomodas a minha tendência recorrente em ouvir a mesma música dezenas de vezes. Nem se consegues fazer strike no boliche. Não sei se tens curiosidade, como eu, de ver o que há dentro da geladeira das outras pessoas. Será que tu também sentes vontade de correr por aí, gritando asneiras, a dar socos nas paredes e ser feliz? Não sei se conheces as Leis de Newton. Nem se és fluente em inglês, alemão, francês, italiano. Não sei se sabes assobiar. Eu nunca aprendi e adoraria que me ensinasses, se souberes. Não sei se te lembras o nome de todas as pessoas que conheces. Eu vivo a me esquecer. Não sei como és com a tua mãe. Nem se ficas envergonhada com demonstrações públicas de afeto. Não sei se também detestas ler jornal. Não sei se preferes o “Alta Fidelidade” no papel ou na tela, nem se sabes do que estou falando. Não tenho ideia se preferes o Keanu Reeves ou o Jude Law, nem se te importas com o fato de eu admirar a beleza da Nicole Kidman ou da Cate Blanchett. Não sei se te irritas com o abajur que esqueço acesso toda noite antes de dormir. Não sei se vais ficar chateada quando me vires estendido no sofá durante horas seguidas a ver televisão, num daqueles dias em que qualquer coisa serve. Não sei se te incomodas com o meu roncar, naquelas noites alcoólicas em que o que eu mais preciso é ficar longe de tudo. Não sei se gostas de crianças. Não sei se és paciente com os outros e se não te chateia por pouca coisa. Não sei se conheces todas as cores ou se sabes o nome daquela árvore. Não sei se te incomodam minhas tatuagens. Nem se sabes dizer as coisas mais engraçadas nas horas mais impróprias. Talvez o meu jeito de ser seja por demais incompatível com o teu. Talvez o meu sexo nunca tenha te trazido a satisfação que necessitas. Talvez o meu amor te faça mal. O que eu não sei mesmo é se estarás disposta a acostumar-se de mim. De resto, pouco tenho por certo. Mas por que haveria eu de ter certeza alguma além do fato de te amar imensa e terrivelmente? O amor não só renega todas as certezas como as estraçalha em picadinhos.