Passageiros

Não sei ao certo quem sou. Desconheço-me em tudo. Mas sempre estarei aqui, a espreitar cada movimento, cada dor e pensamento que habitar o teu ser. As sombras e penumbras de casa são minhas, numa sabedoria que transcende a tua compreensão. Bem sei da falta que te faço. Porém minha ausência não é nada mais que uma grande lição – a que tu não aprendes nunca. Podes pensar que não, mas estou sempre a te proteger de tua própria abnegação. Não quero pensar em tudo o que te rodeia. Canso-me de te ver triste. Diferente de ti, tenho orgulho das minhas feridas abertas. Diferente de ti, as coisas me falam de tua vida, em palavras e gestos que só eu posso entender. Sabias que, se bem ouvida, a noite tagarela à toa, nua e distante? Nós dois somos passageiros de uma mesma viagem. Dois estranhos ocupando o mesmo espaço. Somos o abraço formal de alguém que um dia se amou. Poderia ensinar-te como agora me desprendo das coisas para ser nada de manhã. Morro ao contrário a cada dia e só assim sobrevivo. Minha raiz escura e taciturna toca a tua pele o tempo todo, embora não percebas. Então faço de mim um espelho, à espera de que um dia voltes a me enxergar de verdade.

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“Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, […] se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, […] se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que […] um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.”

António Lobo Antunes in “Memória de Elefante”.