Cores

Noites em branco. A minha mente enegrecida. Claro-escuro cor de indefinição. Luz do sol a invadir o quarto pela manhã. Um festival de alegorias que não entendo. Visto-me cinza todos os dias. Mesmo quando acordo azul triste, amarelo cansaço, vermelho derrota. Vejo os sinais do tempo em meu rosto. As veias saltando sob a pele. Nem corro mais as mãos para impedir os soluços dos olhos. Tenho comigo todas as cores, mas continua chovendo dentro de mim. Tarde fria e sonolenta. Alma inquieta a passear pela solidão da vida. A solidão colorida. A solidão cheia de gente ao redor. Escuta o meu coração. Ainda espero teu par de mãos a me soltar e afagar. Vem colorir os meus dias. Vem me ajudar a recolher os pedaços que caíram com o tempo e que não voltam. Não voltam. E o que me custa mais é pesar quem me ama com os meus delírios, arrancando-lhes também, involuntariamente, pedaços coloridos.

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Eu diria que a frase que mais proferi a mim mesmo durante este ano foi “vai melhorar”, repetindo-a mentalmente quase como um mantra ao longo dos meses, diante de cada adversidade, de cada choro escondido, de cada noite mal dormida. Como se tentasse me convencer de algo.

“Vai melhorar. Vai passar. Vai ficar tudo bem.”

Não quero parecer ingrato. Mas ainda não estou convencido. Então sigo repetindo essas palavras, falso otimista que sou.

Se voltar a escrever, que seja porque ainda me importo.

Se voltar a escrever, que seja porque encontro nas palavras o abrigo para o que me aflige.

Se voltar a escrever, que seja porque realmente vejo a escrita como a única forma de expressão artística que talvez eu tenha.

Se voltar a escrever, que seja porque preciso abraçar de vez essa solidão espiritual, ao invés de me amargurar pelo que não entendo.

Se voltar a escrever, que sejam verdadeiros os meus dizeres, ainda que doloridos.

Se voltar a escrever, que seja porque perdi o medo de mim.

“(…) I think it’s time you had a pink cloud summer
‘Cause you’ve gone too long without a smile
I think it’s time you had another reason to stay for a while
You should stay for a while…”

Patologia

É minha velha conhecida. Já fiz todos os exames, realizei a anamnese e concluí que dificilmente é curável. Os sintomas são vastos e terríveis. As curas bem sucedidas: poucas e dificilmente comprovadas. Só me resta falar dessa dor. Nomeá-la, descrevê-la, entendê-la. Dialogar com aquilo que sinto. Em frases complexas e aparentemente desprovidas de qualquer sentido. Aqui. Neste espaço que é só meu.

Quebra-molas

Sigo aos solavancos. Sou homem sem sinais, esperando que algo me aconteça. Uma descoberta, uma revolução, uma reviravolta qualquer, algo pra fazer sentido, pra me tirar dessa letargia, pra acabar com os silêncios desconfortáveis. Eu continuo tentando, sabe? Não sei bem o porquê. Descanso a cabeça no travesseiro e a mente viaja no tempo. Olho por quem passo e quem passa por mim. Olho e não me identifico. Não faço parte, não fico à vontade, não quero me envolver, não tenho vontade de participar. O narrador da minha história vai falando, descrevendo aos outros o que acha que penso ou sinto, mas suas frases não chegam até mim. Sinto que nunca compreendo nada direito. E todas as minhas relações sociais parecem plásticas, forçadas, ridículas. Finjo enganar a mim mesmo que me importo. Mas é mentira. Uma mentira que conto para parecer normal, para sofrer menos – ou pelo menos para não deixar transparecer aos outros essa coisa ruim e sem nome que sinto aqui dentro. Meu refúgio é meu isolamento. Fica cada vez mais difícil achar o meu lugar nisso tudo. Ser pai, ser filho, ser marido, ser amigo. Ter sonhos, ter consciência, ter esperanças de que tudo um dia se acalma. Mostrar-me forte quando me sinto tão fraco. Não quero explorar os limites para o quanto posso aguentar. Apenas quero conduzir, seguir viagem, mas não sei como fazê-lo. Vigio a velocidade da vida e a distância que percorro até a minha hora mais escura, tentando não pisar de vez no acelerador. Morrer com a cara esmagada no vidro ou enforcado pelo cinto de segurança. Talvez assim eu possa ficar em paz.