É tão difícil organizar as coisas dentro deste caos pensante que é a minha cabeça. Imagino que também seja assim com outras pessoas. Na verdade, o desafio não é bem organizar o caos, mas encontrar alguma paz de espírito no meio dele. Sinto cada vez mais essa necessidade de me apaziguar interiormente. Queria voltar a ser aquela pessoa simpática e criativa que penso ter sido um dia. Mas já me vou habituando a essa nova realidade que, volta e meia, pega-me desprevenido. Felizmente, a capacidade de observar e de retirar o melhor dos momentos vividos é algo que me caracteriza.

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Pandora

Posso recriar-te sem pressa na minha mente. Recordar aquele tom castanho que só os teus olhos parecem ter. Percorrer o teu corpo em toda sua extensão, contornando-o em minhas mãos, escultor desajeitado que sou. Os corpos se fundindo. Fluidos compartilhados entre sorrisos. Arrepios à flor da pele. Amar-te sem o perigo da eternidade. Esconder o medo nos bolsos e a vergonha nunca vencida. E a memória é apenas isto, é só isto, esta coisa que me atravessa o peito e sangra se eu a retirar. Não são as imagens, os diálogos ou a música que tocava. Não é o deslumbramento do álcool no meu sangue. Não é o passado e nem o presente. Segundos de fuga antes de acordar. Às vezes o tempo nos entrega verdades inconvenientes. Reabre feridas insuportáveis que se pensava estarem cicatrizadas, perdidas em algum lugar escuro da memória, à espera de algo que nunca vem. Nunca vem. Único mal que restou na caixa de Pandora. Tenho vontade de colocar os dedos para dentro do peito, apertar essa coisa que não entendo, sacodir, reposicionar, arrumar, acalmar. Afinal, eu não me conhecia. Eis a grande ironia de ser e de não ser: para se conhecer, é preciso mergulhar completamente dentro de alguém. Nós, que nos julgamos tanto e ofertamos tão pouco de nós a quem nos arrebata do chão. Sossega, coração. Salta por cima do tempo, da carne, da anestesia. Abre a janela e deixa o sol entrar. 

Paternidade (3)

Preocupa-me a velocidade com que o tempo passa. Daqui a poucos meses a minha vida vai mudar completamente com a chegada de alguém que eu ainda não conheço, mas que já amo incondicionalmente. E parece ridículo amar assim. Quase tão ridículo quanto conversar com ela através da barriga da mãe. Sinto-me um poço sem fundo de ansiedade, variando entre a euforia e o peso da responsabilidade. Acordo no meio da noite e fico preocupado se ela vai ter roupas ou fraldas suficientes. Quero deixar tudo pronto. Quero estar pronto. Quero ser o melhor pai do mundo.

A queda

Corre a calma pelo deserto de destroços. O lento despertar. O agir automático. O ciclo que se inicia todos os dias. Um filme se projeta na parede. Ao fundo da sala, a banda continua a tocar a mesma música. Acordes antigos, melodia familiar. Desço as escadas e quase tropeço no meu passado. Logo vem a consciência se enroscando nos meus pés, gato ciumento a reclamar atenção. Cheiro de iogurte e chocolate quente emanam pelo ar, distraindo meus pensamentos mais profundos. O tempo é cronometrado entre partidas e chegadas. Reencontros e caminhos paralelos. Vivo no limbo do que eu já fui. Aceito a queda, invisível e inevitável. Não espero redenção. Volto o olhar para as fatias de pão integral na mesa. A tarefas diárias vão me roubando as forças. Estou adormecido entre a euforia e o peso das responsabilidades. E os meus sonhos vão envelhecendo ou ficando idiotas. Dou-me conta agora de que só as palavras resistem. Sei que já não abro mais o meu coração como antigamente. Mas quando o faço, algo parece brilhar dentro de mim. Como o sol que entra pela janela, entregando-me o calor de um gesto que parece não ter mais o seu lugar.