Dual

Tinha olhos grandes, mas isso não a impedia de ser míope. Falava pouco, porque os maiores diálogos aconteciam dentro dela. Gostava de observar e se incomodava de ser observada. Guardava dentro de si o mesmo desejo pelo amor eterno e pelas sucessivas paixões. Vivia flertando com as duas metades de si. O que lhe chamava atenção era quase sempre intenso e contraditório. Sentia-se poderosa em certos dias e invisível em outros. De tudo sentia medo, ao tempo em que não demonstrava o menor receio de se aventurar. Transitava suavemente pelo agridoce limbo das próprias limitações. Debochava dos finais felizes e enchia os olhos de lágrimas com pequenas coisas. Era constantemente perseguida pelo passado, enquanto tomada de assalto pelo futuro. Não se conhecia de todo, mas conhecia todos os outros. Queria viver eternamente e também queria morrer logo por conhecer bem a existência. Achava a vida tediosamente interessante. Tudo podia ser belo e também horrível.

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Pandora

Posso recriar-te sem pressa na minha mente. Recordar aquele tom castanho que só os teus olhos parecem ter. Percorrer o teu corpo em toda sua extensão, contornando-o em minhas mãos, escultor desajeitado que sou. Os corpos se fundindo. Fluidos compartilhados entre sorrisos. Arrepios à flor da pele. Amar-te sem o perigo da eternidade. Esconder o medo nos bolsos e a vergonha nunca vencida. E a memória é apenas isto, é só isto, esta coisa que me atravessa o peito e sangra se eu a retirar. Não são as imagens, os diálogos ou a música que tocava. Não é o deslumbramento do álcool no meu sangue. Não é o passado e nem o presente. Segundos de fuga antes de acordar. Às vezes o tempo nos entrega verdades inconvenientes. Reabre feridas insuportáveis que se pensava estarem cicatrizadas, perdidas em algum lugar escuro da memória, à espera de algo que nunca vem. Nunca vem. Único mal que restou na caixa de Pandora. Tenho vontade de colocar os dedos para dentro do peito, apertar essa coisa que não entendo, sacodir, reposicionar, arrumar, acalmar. Afinal, eu não me conhecia. Eis a grande ironia de ser e de não ser: para se conhecer, é preciso mergulhar completamente dentro de alguém. Nós, que nos julgamos tanto e ofertamos tão pouco de nós a quem nos arrebata do chão. Sossega, coração. Salta por cima do tempo, da carne, da anestesia. Abre a janela e deixa o sol entrar. 

A queda

Corre a calma pelo deserto de destroços. O lento despertar. O agir automático. O ciclo que se inicia todos os dias. Um filme se projeta na parede. Ao fundo da sala, a banda continua a tocar a mesma música. Acordes antigos, melodia familiar. Desço as escadas e quase tropeço no meu passado. Logo vem a consciência se enroscando nos meus pés, gato ciumento a reclamar atenção. Cheiro de iogurte e chocolate quente emanam pelo ar, distraindo meus pensamentos mais profundos. O tempo é cronometrado entre partidas e chegadas. Reencontros e caminhos paralelos. Vivo no limbo do que eu já fui. Aceito a queda, invisível e inevitável. Não espero redenção. Volto o olhar para as fatias de pão integral na mesa. A tarefas diárias vão me roubando as forças. Estou adormecido entre a euforia e o peso das responsabilidades. E os meus sonhos vão envelhecendo ou ficando idiotas. Dou-me conta agora de que só as palavras resistem. Sei que já não abro mais o meu coração como antigamente. Mas quando o faço, algo parece brilhar dentro de mim. Como o sol que entra pela janela, entregando-me o calor de um gesto que parece não ter mais o seu lugar.

*sigh*

Não gosto de envelhecer. Não me habituo ao fatalismo melancólico que a idade traz. Tudo vira resignação aqui dentro. Tudo tende à amargura. Não quero ser flor a morrer lentamente – e olha que nem estou falando da morte. Eu falo da aceitação das coisas que não posso mudar. Sejam elas em mim ou nos outros. Sou estranho e meloso, eu sei. Mas não sou feito de aço. Estou cansado demais de lidar com os pormenores. Não quero me rodear de distrações para me afastar do que incomoda. Não quero ter palavras demais, demasiadas, a ocuparem a boca ao invés de certos beijos, precisos, necessários. Não quero respirar por aparelhos metafóricos. Não quero vomitar o que me falta por dentro. Não quero só conseguir dormir 5 horas por noite. Não quero mais olhar para o abismo. Não quero este silêncio que preparei e que está pronto.

Caligrafia

Uma página vazia
Branca
Virgem
Olho-a de cima a baixo
Suas linhas perfeitamente paralelas
Aguardando algo
Algo que nunca vem
Ou nunca como eu gostaria
Porque me vem incompleto, difuso, débil
Olho a folha alva
De novo e outra vez
Desejoso de a preencher com coisas minhas
Palavras escritas com aquela letrinha que tento fazer bonita
Tento enchê-la de pensamentos, sensações, emoções, vontades
A caneta falha
A mão treme
A cabeça explode
Tinha inveja de um colega da escola
Aquele com a caligrafia perfeitinha
Redondinha
Com um “A” que parecia uma obra de arte
Eu não
Rascunho
Sempre
Qualquer coisa próxima do ilegível
Ainda assim insistindo
Querendo preencher páginas e mais páginas de garranchos
Com minha letrinha quase indecifrável
Os meus rabiscos
Que mais ninguém entende
Que mais ninguém pode
A não ser eu
Escrevo para mim
E, quando acabo, gosto de olhar para a página
De novo e outra vez
Rabiscada
Sentida
Minha.

Maternidade

Ela fica parada em frente ao espelho, acolhendo com as mãos o ventre que a cada dia cresce mais e mais, admirada das mudanças no próprio corpo. Sorri através do reflexo para o pequeno ser ainda em formação dentro de si. E tem aos olhos um brilho muito particular cor de felicidade.

ESP/EXP

Vejo esperança e expectativa como conceitos diferentes. A esperança é bem parecida com um sonho. É um desejo, uma vontade, mas que pode nunca acontecer e não ficamos chateados com isso. Afinal, era tudo um sonho. Já a expectativa, seja em relação a nós, aos os outros ou a alguma coisa, eu vejo como algo mais palpável, mais próximo do real. E que nos leva a cobranças e desilusões, caso não se realize.

Mas há um fator que sempre esquecemos: não controlamos tudo. Há coisas que estão demasiado longe. Há coisas que não estão nas nossas mãos, independem de nós.

Tenho esperança aos montes, sobre várias coisas, mas sempre de uma forma consciente, racional. Sei que muitos dos meus sonhos não são, nem nunca vão ser reais. Nem por isso que deixo de sonhar.

Expectativa sempre a tive, e sempre sofri muito com isso. Frustração após frustração, desilusão atrás de desilusão. Até que, por várias razões, desde conversas com outras pessoas à consciencialização de que há coisas que estão fora do meu alcance, comecei a não ter, a não esperar nada. É um processo lento, demorado, que no início soa quase falso, porque parece fingimento, não sentir, não se animar, não ansiar por algo. O lado bom é que você não se desaponta mais com nada. O lado ruim é que isto te torna cínico. E eu ainda sinto falta de me empolgar verdadeiramente com alguma coisa.

Às vezes a esperança tende a se tornar expectativa e isso é bem difícil de lidar. Porque se os sonhos se tornarem algo que esperamos que de fato aconteçam, perdemos o chão quando eles não se realizam. Mas se deixarmos de sonhar, o que mais nos resta?

Não que eu viva no mundo dos sonhos. Mas estes preenchem um espaço dentro de mim.

Cadáver 

Ouço falar do futuro e eu não consigo esconder o meu desinteresse. Porque tudo o que eu tinha em mim eram sonhos de adolescente. Desejos rebeldes de não me tornar tudo aquilo o que eu mais odiava. Vontades livres de me realizar naquilo que posso ser. Um universo de possibilidades. Mas as escolhas me aprisionaram, como todas as escolhas fazem. Talvez o pensamento mais difícil de lidar: as decisões nos esgotam. Vejo o meu mundo esvair-se por entre os meus dedos. Já não sonho mais. Agora as ocupações são rotinas inócuas, passatempos baratos, conversas superficiais. Tornei-me cadáver de mim. Faço o que pedem, estou quando chamam, pródigo, prolífico, cumpro prazos e metas, telefono, ironizo, compreendo, cumprimento, atravesso no verde, procuro ter calma, consolo que precisa, animo quem está triste. Mas e o meu eu? É apenas uma coisa viva que caiu. Um eu sem direito a nada. Um eu imóvel, tolo, abjeto, impassível. Um eu aprisionado em lembranças fugazes. Um eu que se assusta com as possibilidades e suspira ante o inevitável. Minha vida não me pertence mais. Minha vida é uma grande resignação. E percebo que esse cansaço corporal é só um reflexo do meu estado mental. Deixei que a escuridão me tomasse o olhar. Esperei que a imagem no espelho fosse outra. Não era. Em algum momento, não sei muito bem quando, os meus gestos tornaram-se, de fato, automáticos. Foi aí que peguei um revólver nas mãos e encerrei o assunto. Dei um tiro no meu próprio reflexo, no lugar onde deveria estar o coração. Os vidros estilhaçados agora repousam no lixo da cozinha. São a prova de uma tentativa de assassinato – e não de suicídio. Tentativa, digo bem: ainda estou aqui. Vivo e morto.

Filler

Há uma folha em branco escondida nas entrelinhas do meu conforto. A brancura que carrega em si a memória do que acontece dentro de mim, em pensamentos que nunca ousaram conhecer a luz do dia, porque surgem fortuitos na tela da minha mente. Palavras que se escrevem e que se apagam sem deixar rastros, desaparecendo tão rápido quanto estas teclas agora se rebaixam no confronto com os meus dedos, sem a lembrança de um dia terem existido. Mas sempre deixando impressões, sensações, percepções. Tentativas vãs de entender aquilo que não se entende. Às vezes me sinto perdido entre os encontros e desencontros da vida. Perdido dentro do enchimento (ou do preenchimento deste vazio existencial que está sempre à espreita). Brincadeiras que o destino teima em armar, só para ver até onde aguento, até onde vou, até que ponto me conheço. Como quando um filme ou livro descreve longas passagens em que nada acontece ou faz sentido, porque o autor quer apenas enrolar a trama ou desviar a atenção do que realmente importa. Fica aquele limbo silencioso na história, sem que se consiga decidir o que fazer a seguir: qual passo dar, quais palavras dizer, quais sentimentos sentir. Não sei de nada agora. Não sei de absolutamente nada de nada. Não sei de nada de mim. E este não saber me incomoda de um jeito que também não sei expressar. Tento ver além do escuro que se forma perante os meus olhos cansados. E me lembro que por detrás deste olhar, há mil respostas às perguntas que ficam pelo ar, escritas nas folhas em branco que carrego aqui dentro. Se eu pudesse, desaparecia. Continuo apenas por continuar. Sigo vagueando por caminhos conhecidos e os rostos são sempre os mesmos. Os dias são longos e cada vez tenho menos paciência com o que me cerca.