“fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.” 
José Luís Peixoto

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Quando o sol molha por dentro

“Podemos reapaixonar-nos
de vez em quando
sem nunca nos termos deixado de amar.
É o simples prazer daqueles momentos,
os longos, longos, segundos
quando o sol molha por dentro e a chuva se veste por fora.

Olho-te agora – tens a ponta do nariz manchada com café…
E o meu sorriso abre-se, solto – adocicado já.
Conto-te o dia de hoje já a espera de te contar o de amanha.

Nao te aceito as promessas.
Até porque te amo. Tanto que
me esqueci de te dizer dessa mancha de café.

Nao te aceito as promessas. Dá-me o simples prazer de estar aqui e esperar um destes momentos.
Quando o sol molha por dentro e a chuva se mistura com o beijo.”

Mines Castanheira in “plasticidades”.

“(…) O berro de Ana deve ter alcançado quem passava do outro lado da curva. Uma enfermeira a levantou do chão, e ela continuou se debatendo enquanto o pai chorava pela primeira vez. Um copo de água com açúcar chegou logo, e Ana foi se acalmando do pânico, mas não da dor. Quando o choro amainou, ouviu a voz do pai a casa vai ficar tão vazia, e a constatação a perfurou mais do que o veredicto do médico. A partir desse instante só ouvia o eco da voz frágil daquele pai que nunca chorava, a casa vai ficar tão vazia.”

Tatiana Salem Levy in “Paraíso”.

“(…) o velho se sentia como quem é velho – e para isso ele tinha todos os motivos do mundo, isso nem sequer podemos discutir – alguém a quem nada mais pode acontecer, nada de novo, nem de bom, nem de ruim (com ressalva das suas probabilidades um pouco melhores ou um pouco piores, porém de modo algum insignificantes) (embora essencialmente isso nada altere na essência): ele se sentia como alguém a quem já tivesse acontecido tudo (também aquilo que ainda poderia vir a acontecer, ou o que poderia ter acontecido), alguém que tivesse – temporariamente – burlado sua própria morte, tivesse vivido – definitivamente – sua vida, alcançado sua modesta recompensa pelos seus pecados, punição rigorosa pelas suas virtudes, que já há muito tempo é protagonista permanente daquela lista cinzenta, que – e quem poderia dizer onde e segundo quais critérios – é um controle sobre aqueles que excedem o número estipulado; ele se sentia como quem, apesar de tudo, acorda dia após dia consciente de ainda existir (e isso ele nem achava tão desconfortável assim) (como talvez pudesse achar) (se levasse sempre tudo em consideração) (o que entretanto ele jamais fez)”

Imre Kertész in “O fiasco”.

“Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir …

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão
Qualquer coisa assim
Como um perdão?”

— Fernando Pessoa