Quebra-molas

Sigo aos solavancos. Sou homem sem sinais, esperando que algo me aconteça. Uma descoberta, uma revolução, uma reviravolta qualquer, algo pra fazer sentido, pra me tirar dessa letargia, pra acabar com os silêncios desconfortáveis. Eu continuo tentando, sabe? Não sei bem o porquê. Descanso a cabeça no travesseiro e a mente viaja no tempo. Olho por quem passo e quem passa por mim. Olho e não me identifico. Não faço parte, não fico à vontade, não quero me envolver, não tenho vontade de participar. O narrador da minha história vai falando, descrevendo aos outros o que acha que penso ou sinto, mas suas frases não chegam até mim. Sinto que nunca compreendo nada direito. E todas as minhas relações sociais parecem plásticas, forçadas, ridículas. Finjo enganar a mim mesmo que me importo. Mas é mentira. Uma mentira que conto para parecer normal, para sofrer menos – ou pelo menos para não deixar transparecer aos outros essa coisa ruim e sem nome que sinto aqui dentro. Meu refúgio é meu isolamento. Fica cada vez mais difícil achar o meu lugar nisso tudo. Ser pai, ser filho, ser marido, ser amigo. Ter sonhos, ter consciência, ter esperanças de que tudo um dia se acalma. Mostrar-me forte quando me sinto tão fraco. Não quero explorar os limites para o quanto posso aguentar. Apenas quero conduzir, seguir viagem, mas não sei como fazê-lo. Vigio a velocidade da vida e a distância que percorro até a minha hora mais escura, tentando não pisar de vez no acelerador. Morrer com a cara esmagada no vidro ou enforcado pelo cinto de segurança. Talvez assim eu possa ficar em paz.

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Entardecer

A tarde cai e o sol vai adormecendo. Vou me encontrando em pequenas partículas suspensas pelo ar, que logo somem ao simples contato com a ponta dos meus dedos. Um breve momento de reflexão. Vejo o mundo por um prisma limpo. E acima de tudo, mais importante ainda, consigo me ver de fora. Tenho consciência o bastante para apreciar a forma como interajo com o mundo, e assim, corrigir onde tem que ser corrigido, melhorar onde tenho que melhorar. Reconheço-me e percebo que, para além do sobreviver, ainda me resta uma centelha de vida. Uma fagulha fraca e débil, mas que ainda brilha. Um esboço em aquarela de mim, do que sou, do que gostaria de ser e, sobretudo, do que fui. Como as cores de um entardecer triste pela janela. Tudo está em outra ótica. O cansaço ainda me lança contra a parede, repetidas vezes, até me doer os músculos e o cabelo ir sumindo irremediavelmente. Mas não me impede. Nada me impede. Perto, atravessando o vidro e chamando a atenção, a luz do crepúsculo entra, sem convite ou cerimônia. E sobre os meus olhos entreabertos, desenha-se a benção de um instante de graça. Abraço-me e me diagnostico com amor. Amor pela meia-luz, amor por nada, amor por tudo, amor por amor, só para passar o tempo ou para me sentir um pouco mais vivo. Lá fora, vigiados pelo vento, sapos e grilos ecoam suas cantorias.

“Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?…”

Álvaro de Campos in “Poemas”.

Paternidade (6)

Há coisas que só se compreendem em sua plenitude quando uma mãozinha minúscula agarra com força a nossa. E só de a olhar, nós nos sentimos felizes, felizes sem nem saber ao certo o que é a felicidade ou se temos vontade de rir ou de chorar. E nos sentimos reis do universo por termos trazido ao mundo uma nova vida, ao mesmo tempo em que cresce em nós uma tremenda aflição porque essa vidazinha deposita em nós toda a confiança para crescer e ser feliz. E nós não sabemos sequer por onde começar, pois não entendemos nada de fraldas, choros, mamadas e pomadas para assaduras. E temos de aprender tudo com aqueles seres minúsculos e rabugentos, cujos gritos se alojam em nossa cabeça até quase enlouquecermos – mas sem os quais passamos a nos sentir vazios.