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“fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.” 
José Luís Peixoto

Paternidade (5)

Falta pouco para o nascimento da minha filha e eu ainda me sinto perdido entre tantas informações, expectativas e sentimentos. Estou ciente dos desafios que virão com essa nova etapa da minha vida. Mas ainda não consegui achar o meu lugar nisso tudo. Já não conseguia antes. Aquele velho incômodo persiste dentro de mim, latente, adormecido. Nunca vai embora de vez. Nunca me deixa em paz. Eu só queria me sentir satisfeito com as coisas. Parece sempre faltar algo. Sempre. Tenho medo de estar depositando nos ombros de uma menininha inocente que ainda nem nasceu a responsabilidade por uma alegria de viver que só depende de mim. Só depende de mim.

Dual

Tinha olhos grandes, mas isso não a impedia de ser míope. Falava pouco, porque os maiores diálogos aconteciam dentro dela. Gostava de observar e se incomodava de ser observada. Guardava dentro de si o mesmo desejo pelo amor eterno e pelas sucessivas paixões. Vivia flertando com as duas metades de si. O que lhe chamava atenção era quase sempre intenso e contraditório. Sentia-se poderosa em certos dias e invisível em outros. De tudo sentia medo, ao tempo em que não demonstrava o menor receio de se aventurar. Transitava suavemente pelo agridoce limbo das próprias limitações. Debochava dos finais felizes e enchia os olhos de lágrimas com pequenas coisas. Era constantemente perseguida pelo passado, enquanto tomada de assalto pelo futuro. Não se conhecia de todo, mas conhecia todos os outros. Queria viver eternamente e também queria morrer logo por conhecer bem a existência. Achava a vida tediosamente interessante. Tudo podia ser belo e também horrível.