Dual

Tinha olhos grandes, mas isso não a impedia de ser míope. Falava pouco, porque os maiores diálogos aconteciam dentro dela. Gostava de observar e se incomodava de ser observada. Guardava dentro de si o mesmo desejo pelo amor eterno e pelas sucessivas paixões. Vivia flertando com as duas metades de si. O que lhe chamava atenção era quase sempre intenso e contraditório. Sentia-se poderosa em certos dias e invisível em outros. De tudo sentia medo, ao tempo em que não demonstrava o menor receio de se aventurar. Transitava suavemente pelo agridoce limbo das próprias limitações. Debochava dos finais felizes e enchia os olhos de lágrimas com pequenas coisas. Era constantemente perseguida pelo passado, enquanto tomada de assalto pelo futuro. Não se conhecia de todo, mas conhecia todos os outros. Queria viver eternamente e também queria morrer logo por conhecer bem a existência. Achava a vida tediosamente interessante. Tudo podia ser belo e também horrível.

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Publicado por

Chico

32, perdas & danos

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