A queda

Corre a calma pelo deserto de destroços. O lento despertar. O agir automático. O ciclo que se inicia todos os dias. Um filme se projeta na parede. Ao fundo da sala, a banda continua a tocar a mesma música. Acordes antigos, melodia familiar. Desço as escadas e quase tropeço no meu passado. Logo vem a consciência se enroscando nos meus pés, gato ciumento a reclamar atenção. Cheiro de iogurte e chocolate quente emanam pelo ar, distraindo meus pensamentos mais profundos. O tempo é cronometrado entre partidas e chegadas. Reencontros e caminhos paralelos. Vivo no limbo do que eu já fui. Aceito a queda, invisível e inevitável. Não espero redenção. Volto o olhar para as fatias de pão integral na mesa. A tarefas diárias vão me roubando as forças. Estou adormecido entre a euforia e o peso das responsabilidades. E os meus sonhos vão envelhecendo ou ficando idiotas. Dou-me conta agora de que só as palavras resistem. Sei que já não abro mais o meu coração como antigamente. Mas quando o faço, algo parece brilhar dentro de mim. Como o sol que entra pela janela, entregando-me o calor de um gesto que parece não ter mais o seu lugar.

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Publicado por

Chico

32, perdas & danos

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