“(…) All of this frustrates me bad
Cause I can’t stay mad at you or change anything that I had
She told me don’t think like that, it’s really not that bad
I hope this makes you sad
I hope this makes you sad…”

ESP/EXP

Vejo esperança e expectativa como conceitos diferentes. A esperança é bem parecida com um sonho. É um desejo, uma vontade, mas que pode nunca acontecer e não ficamos chateados com isso. Afinal, era tudo um sonho. Já a expectativa, seja em relação a nós, aos os outros ou a alguma coisa, eu vejo como algo mais palpável, mais próximo do real. E que nos leva a cobranças e desilusões, caso não se realize.

Mas há um fator que sempre esquecemos: não controlamos tudo. Há coisas que estão demasiado longe. Há coisas que não estão nas nossas mãos, independem de nós.

Tenho esperança aos montes, sobre várias coisas, mas sempre de uma forma consciente, racional. Sei que muitos dos meus sonhos não são, nem nunca vão ser reais. Nem por isso que deixo de sonhar.

Expectativa sempre a tive, e sempre sofri muito com isso. Frustração após frustração, desilusão atrás de desilusão. Até que, por várias razões, desde conversas com outras pessoas à consciencialização de que há coisas que estão fora do meu alcance, comecei a não ter, a não esperar nada. É um processo lento, demorado, que no início soa quase falso, porque parece fingimento, não sentir, não se animar, não ansiar por algo. O lado bom é que você não se desaponta mais com nada. O lado ruim é que isto te torna cínico. E eu ainda sinto falta de me empolgar verdadeiramente com alguma coisa.

Às vezes a esperança tende a se tornar expectativa e isso é bem difícil de lidar. Porque se os sonhos se tornarem algo que esperamos que de fato aconteçam, perdemos o chão quando eles não se realizam. Mas se deixarmos de sonhar, o que mais nos resta?

Não que eu viva no mundo dos sonhos. Mas estes preenchem um espaço dentro de mim.

Cadáver 

Ouço falar do futuro e eu não consigo esconder o meu desinteresse. Porque tudo o que eu tinha em mim eram sonhos de adolescente. Desejos rebeldes de não me tornar tudo aquilo o que eu mais odiava. Vontades livres de me realizar naquilo que posso ser. Um universo de possibilidades. Mas as escolhas me aprisionaram, como todas as escolhas fazem. Talvez o pensamento mais difícil de lidar: as decisões nos esgotam. Vejo o meu mundo esvair-se por entre os meus dedos. Já não sonho mais. Agora as ocupações são rotinas inócuas, passatempos baratos, conversas superficiais. Tornei-me cadáver de mim. Faço o que pedem, estou quando chamam, pródigo, prolífico, cumpro prazos e metas, telefono, ironizo, compreendo, cumprimento, atravesso no verde, procuro ter calma, consolo que precisa, animo quem está triste. Mas e o meu eu? É apenas uma coisa viva que caiu. Um eu sem direito a nada. Um eu imóvel, tolo, abjeto, impassível. Um eu aprisionado em lembranças fugazes. Um eu que se assusta com as possibilidades e suspira ante o inevitável. Minha vida não me pertence mais. Minha vida é uma grande resignação. E percebo que esse cansaço corporal é só um reflexo do meu estado mental. Deixei que a escuridão me tomasse o olhar. Esperei que a imagem no espelho fosse outra. Não era. Em algum momento, não sei muito bem quando, os meus gestos tornaram-se, de fato, automáticos. Foi aí que peguei um revólver nas mãos e encerrei o assunto. Dei um tiro no meu próprio reflexo, no lugar onde deveria estar o coração. Os vidros estilhaçados agora repousam no lixo da cozinha. São a prova de uma tentativa de assassinato – e não de suicídio. Tentativa, digo bem: ainda estou aqui. Vivo e morto.