Filler

Há uma folha em branco escondida nas entrelinhas do meu conforto. A brancura que carrega em si a memória do que acontece dentro de mim, em pensamentos que nunca ousaram conhecer a luz do dia, porque surgem fortuitos na tela da minha mente. Palavras que se escrevem e que se apagam sem deixar rastros, desaparecendo tão rápido quanto estas teclas agora se rebaixam no confronto com os meus dedos, sem a lembrança de um dia terem existido. Mas sempre deixando impressões, sensações, percepções. Tentativas vãs de entender aquilo que não se entende. Às vezes me sinto perdido entre os encontros e desencontros da vida. Perdido dentro do enchimento (ou do preenchimento deste vazio existencial que está sempre à espreita). Brincadeiras que o destino teima em armar, só para ver até onde aguento, até onde vou, até que ponto me conheço. Como quando um filme ou livro descreve longas passagens em que nada acontece ou faz sentido, porque o autor quer apenas enrolar a trama ou desviar a atenção do que realmente importa. Fica aquele limbo silencioso na história, sem que se consiga decidir o que fazer a seguir: qual passo dar, quais palavras dizer, quais sentimentos sentir. Não sei de nada agora. Não sei de absolutamente nada de nada. Não sei de nada de mim. E este não saber me incomoda de um jeito que também não sei expressar. Tento ver além do escuro que se forma perante os meus olhos cansados. E me lembro que por detrás deste olhar, há mil respostas às perguntas que ficam pelo ar, escritas nas folhas em branco que carrego aqui dentro. Se eu pudesse, desaparecia. Continuo apenas por continuar. Sigo vagueando por caminhos conhecidos e os rostos são sempre os mesmos. Os dias são longos e cada vez tenho menos paciência com o que me cerca.

Descobri recentemente que vou ser papai. E estou experimentando uma mistura de sensações muito grande: felicidade, medo, ansiedade, desejo. A expectativa da responsabilidade que quero assumir tem me assustado, não só pelo fato de que não tenho a menor ideia de como fazê-lo ou sê-lo, mas também porque não tive um referencial paterno em casa, então não sei muito bem como me sentir sobre isso tudo. Mas talvez seja normal essa sensação nebulosa sobre todas as transformações que irão acontecer na minha vida.