Castelo de cartas

Olhava pela janela do trem a vista verdejante do caminho, distraído, até que, ao se voltar novamente para o lado de dentro, parou um instante para repousar os olhos na moça bonita que lia avidamente algo da Jane Austen, sentada em uma poltrona poucos metros à frente. De onde estava, não conseguia enxergar o título do livro, mas podia vê-la com perfeição. Ela tinha o cabelo muito loiro, preso atrás por uma espécie de elástico colorido, grandes olhos em forma de amêndoa e uma boca suave, realçada pelas maçãs do rosto bem rosadas. Pensou que nunca tinha visto uma mulher tão adorável. Ficou observando-a secretamente e, embalado pelo movimento do trem, imaginou como seria a voz dela, se gostava de cachorros, de comer morangos sentada na varanda de casa ou de sair para dançar. Logo já estava imaginando o casamento dos dois, a casa em que viveriam no campo, os filhos que viriam, a vida simples e cheia de amor que teriam até a velhice. Saltando de sonho em sonho, foi imaginando o futuro dos dois como quem constrói um castelo de cartas, sem pensar em probabilidades ou correspondência. Durante todo o tempo em que a ficou observando, torcia para que os olhos dela esbarrassem nos dele, mas, ao mesmo tempo, não saberia o que fazer se isto acaso acontecesse. Ela parecia concentrada demais com a leitura, absorvida por outro mundo, indiferente ao balançar da viagem ou aos olhares alheios que despertava. Esperando um golpe de sorte, uma interferência divina ou uma coincidência do destino, continuou a admirá-la, até que, de súbito, ela ergueu o rosto e olhou diretamente para ele. Ele então baixou a cabeça apressado, o rosto vermelho visivelmente constrangido, não voltando a encará-la de novo pelo resto da viagem. Amaldiçoou a timidez e a falta de coragem que tinha. Tratou de pegar uma revista qualquer para ler, enquanto pensava, já abatido: “Como se ela fosse olhar para mim…”.

Não era uma viagem longa, mas ela sempre trazia consigo algo para ler e ajudar a passar o tempo. O livro da vez era “Razão e Sensibilidade”, o qual já havia visto o filme, mas estava achando a leitura bem melhor. Estava entretida há bastante tempo com o livro quando, de repente, teve a impressão de estar sendo observada. Começou a ficar incomodada, cruzando e descruzando as pernas, passando uma mecha de cabelo loiro para trás da orelha e virando páginas à frente sem as ler direito. Depois de um certo tempo de impaciência, levantou a cabeça e encontrou o olhar curioso de um rapaz sentado alguns metros à frente. Ficou corada de início, virando o rosto para o lado esquerdo e fingindo observar a paisagem pela janela do trem, enquanto pensava que o rapaz era “até bonitinho”. Tentou voltar à leitura, mas estava desconcentrada demais. Queria agora ler o rapaz indiscreto, dirigindo-lhe olhares sutis, observando as feições. Gostou do maxilar forte, da boca generosa, dos olhos gentis, do cabelo despenteado. “Olha para mim de novo…”, pediu em silêncio. Mas ele não olhou mais durante todo o resto da viagem, saindo apressadamente e de cabeça baixa quando chegaram à estação. Por fim, suspirou resignada: “Como se ele fosse se interessar por mim…”.

“(…) o velho se sentia como quem é velho – e para isso ele tinha todos os motivos do mundo, isso nem sequer podemos discutir – alguém a quem nada mais pode acontecer, nada de novo, nem de bom, nem de ruim (com ressalva das suas probabilidades um pouco melhores ou um pouco piores, porém de modo algum insignificantes) (embora essencialmente isso nada altere na essência): ele se sentia como alguém a quem já tivesse acontecido tudo (também aquilo que ainda poderia vir a acontecer, ou o que poderia ter acontecido), alguém que tivesse – temporariamente – burlado sua própria morte, tivesse vivido – definitivamente – sua vida, alcançado sua modesta recompensa pelos seus pecados, punição rigorosa pelas suas virtudes, que já há muito tempo é protagonista permanente daquela lista cinzenta, que – e quem poderia dizer onde e segundo quais critérios – é um controle sobre aqueles que excedem o número estipulado; ele se sentia como quem, apesar de tudo, acorda dia após dia consciente de ainda existir (e isso ele nem achava tão desconfortável assim) (como talvez pudesse achar) (se levasse sempre tudo em consideração) (o que entretanto ele jamais fez)”

Imre Kertész in “O fiasco”.

Eu gostava de me ver no intimismo de suas palavras. Era tão doce a sua escrita, tão pudica e contida e, ao mesmo tempo, tão rica de sentimentos, tão cheia de sensibilidade. Como se houvesse um véu transparente, deixando um universo de sonhos por adivinhar por detrás de toda aquela contenção. Um poço de emoções represadas em ponto de ebulição. Mas sem nunca se alterar, sem levantar a voz, sem se comprometer mais do que o necessário. Versos discretos como carícias contidas, sorrisos mudos, olhares que não precisam dizer nada. Tinha uma melancolia insuportável – quase tão insuportável quanto a minha – e talvez fosse isso o que me atraía tanto. Fosse eu alguém mais afeto às palavras, queria escrever coisas parecidas, tamanha a admiração que sentia. Pelo menos em dias assim. Dias em que a tristeza me deixava sereno e lânguido.

Vermelhos

A roupa espalhada pelo chão contava uma história. Os beijos que se apoderavam de nós eram infinitos. O tempo, uma noção distorcida. Transpirados, sedentos, livres. Não queríamos parar, não podíamos. Era mais forte. Era diferente. É assim mesmo que se sente? E depois… não havia mais depois. Só a serenidade incômoda de quem ama. “Por que estamos aqui, divertidos e felizes, completamente entregues à liberdade da inconsciência e alheios ao mundo lá fora?”. Às vezes a vida nos abandona em ilusões. E os nossos olhos, já escarlates, não deixavam dúvidas. Éramos vermelhos. Corados, vivos, maiores, capazes. Vermelho sangue. Vermelho tragédia. Vermelho fim. Talvez fosse um sonho. Ou talvez nada importe nesta noite vazia.

23:43

Uma solidão se abateu sobre mim às 23:43. Uma solidão sem sono, sem motivo, sem rosto. Que não faltava gente. Que não nasceu do isolamento. Que não tinha contexto definido. Que não tinha explicação na filosofia. Que não veio do passado e nem se conhece no futuro. Que me deixou imóvel, confuso e me fez chorar sem entender. A solidão como um eclipse, exatamente às 23:43 de uma noite qualquer. Como um segundo de claridade cegante. Uma solidão que eu não conhecia, que nunca tinha me ocorrido até então e que foi num instante a soma nula de tudo o que eu sentia.