Dualidade

duality

Estranho é o alternar entre chuva e sol na minha janela. E me cansa pensar que talvez essa inconstância seja o mais puro reflexo do que acontece dentro de mim. Às vezes penso que sou uma casca vazia presa no tempo, perdida entre as sombras do passado e as sobras do que ficou. Porque existem sempre duas realidades. O estranho e o normal. O triste e o conformado. O desejo e a responsabilidade. Uma série de paradoxos que eu criei e que me formam, mas que eu nunca me acostumo. Pois não consigo abrir e fechar os olhos sem chegar a uma definição. Ser eu e também ser outro. A coexistência pacífica de dois mesmos “eus” num único espaço. Um conflito que me dilacera por dentro. Toda a dualidade de uma vida que eu não entendo. Essa divisão já me consumiu por demais e ainda consome. E ainda bem que estou de mãos vazias. Caso contrário, esvaziaria o mundo de seres e significado. Só não saberia a quem culpar.

Proposta

Vamos simular uma perda de memória. Vamos fingir que somos outros. Vamos dormir pouco e sonhar muito. Vamos testar os limites da nossa liberdade. Vamos fazer malabarismo com segredos. Vamos internalizar a noite. Vamos beber do velho e brindar ao novo. Vamos esquecer o que sabemos. Vamos aprender a ouvir mais e falar menos. Vamos deixar o vento bater no rosto. Vamos ignorar riscos. Vamos aumentar o volume, a velocidade, a altura, a quantidade, o tamanho, o gosto. Vamos gostar de verdade. Vamos rir até a barriga doer. Vamos quebrar os relógios. Vamos ignorar os outros. Vamos nos acostumar com o silêncio. Vamos fazer acontecer. Vamos libertar os nossos impulsos. Vamos tirar as nossas roupas. Vamos juntar a minha solidão com a sua e transformar em alguma companhia. Vamos procurar folhas diferentes e esmagar rosas. Vamos atrás desse tal de amor e estapeá-lo na cara.

“Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir …

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão
Qualquer coisa assim
Como um perdão?”

— Fernando Pessoa