30 do 9

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Bem, hoje é meu aniversário. E como em todos os outros anos, uma certa melancolia me invade neste dia. Na verdade, durante todo o mês de setembro me sinto assim. É uma época de balanços. Eu me sinto como fosse véspera de ano novo, quando o tempo insiste em me perguntar o que fiz dele. O que fiz de mim.

O fato é que nos últimos anos faço um esforço enorme para estar bem, para estar animado, para me relacionar com outras pessoas e me livrar dessa apatia que às vezes me cobre os olhos e me impede de ver o lado bom da vida, as coisas boas, as vantagens de se estar vivo mais um ano, de aproveitar a felicidade como se deve. Sei o quanto sou amado pelas pessoas que me rodeiam e sei que elas gostam de me ver feliz, de bom humor, o bobalhão que eu posso ser quando quero. Juro, tento manter isso pelos outros, não por mim. E tudo bem, não vejo problema em fazer isso mais pelos outros do que por mim. Não sou assim tão egoísta. Tenho consciência da minha sorte em ter aparecido neste mundo rodeado das pessoas maravilhosas que compõem a minha família e o meu círculo de amigos.

Acontece que o dia de hoje sempre me leva a fazer balanços. E balanços são coisas meio deprimentes. Reduzem a qualidade e a variedade da vida a resumos injustos. E me bate uma vontade inexplicável de fazer tudo aquilo que ainda não fiz, todos os sonhos incompletos, todas as vontades que foram deixadas de lado, por vários motivos. Escrever um livro, gravar um disco, mudar de emprego, viajar mais, deixar a barba crescer, ter filhos, etc. Um mar de esperanças e expectativas. Acho que no fundo este dia me leva sempre a cair no passado. E geralmente quando lá vou, é com melancolia que de lá volto.

Muito melhor que fazer este balanço é começar a sonhar com o que por aí vem, fazer planos para o futuro. E, talvez, seja isso o que realmente importa: continuar a sonhar, a ter desejos, a andar, seja por atalhos ou caminhos principais, tanto faz. Uma hora há de se chegar a algum lugar (espero).

Já não culpo os astros por seus movimentos orbitais. Já não agradeço a divindades pelo milagre da vida. Já não espero por grandes reviravoltas do destino. Porque realmente acredito que tudo depende de mim. E até naquilo que não depende diretamente de mim, acho que também me cabe escolher como vou lidar. Porque tudo nessa vida nos molda. Não quero guardar só bons momentos. Até porque os maus momentos deviam ser, acima de tudo, momentos de se avançar, de se aprender e crescer. O que passou, passou. As feridas tornam-se cicatrizes. Eu até gosto de cicatrizes, mas daquelas que se veem. Não gosto das ocultas.

Enfim, não posso reclamar. Já realizei muita coisa até aqui. O resto? Bem… estou correndo atrás. “Copo meio cheio”, como dizem. Mas sempre fica aquele medo. O medo do tempo acabar e não conseguir concretizar o que ainda falta.

São 32 anos agora. Será que ainda dá de fazer muita coisa?

“A nossa experiência mais imediata da realidade, o presente, é apenas aquele momento infinitesimalmente curto no qual o futuro se transforma em passado. É também o instante no qual as propriedades da realidade de alguma forma se invertem: o futuro é alterável mas desconhecido, o passado é conhecido mas inalterável.”

Paul Watzlawick

As coisas

Há coisas que não digo, mas que espero que nunca morram em mim. Como se dizê-las fosse quebrá-las, roubar-lhes a importância. Há coisas que não digo, mas nunca esqueço: aquele dia triste, um olhar carinhoso, minhas mãos trêmulas. Coisas que penso e penso e penso, mas não chego a nada. Como se o nada me cobrisse a mente de escuridão. Há coisas que se fecham aqui dentro, à sós, trancadas em algum lugar entre os pulmões e a boca, e que, na hora de serem faladas, engasgam, sufocam, definham e morrem. Um muro onde bate com força tudo aquilo que existe dentro de mim. Por isso, não quero dizer. Não quero dizer todas as coisas que gostaria, porque não saberia lhes fazer jus. Porque não sei como dizer. Sou criança ainda a engatinhar quando se trata de dizer algo. Curiosamente, no vazio dos meus momentos mais íntimos, tenho acessos perfeitos de verborreia silenciosa, de monólogos em que discorro abundantemente sobre tantas coisas… Mas ao abrir a boca, os sons enrolam-se todos, formando uma massa enorme e confusa de pensamentos desorganizados, ecoando sem parar entre a língua e os dentes. Então o lugar das palavras se ocupa de silêncio. E o silêncio se enche de distância. A distância que vai de mim até as coisas.

Cirurgia plástica

– Então o senhor compreende os riscos desta intervenção?
– Sim.
– Olhe… Como profissional da área, tenho que alertá-lo de que se trata de uma operação delicada e…
– Eu sei. Estou ciente. Vamos andando, quanto antes melhor.
– Está mesmo certo disso? 100% de certeza? Apesar dos números serem esperançosos, a verdade é que há riscos de…
– Sim, eu sei! Ande logo que estou com pressa!
– Muito bem. Deite-se ali… Vamos tirar esse plástico que está em volta do seu coração.

ero. lit. (9)

Não quero pertencer a lugar algum que não seja o teu abraço. Fixar residência em teu colo, decorando-o com minhas mãos e beijos. Percorrer sozinho as curvas da estrada macia que é a tua pele, de uma ponta à outra, espalhando o meu cheiro por onde andar. Abrir-te em flor silenciosa e me demorar no ventre e ao ventre retornar, quantas vezes forem necessárias. Imaginar-te preciosa, sagrada, como se feita de cristal e a minha vontade pudesse te corromper, macular, estilhaçar. Possuir-te durante horas intensas, descobrindo calmamente todos os teus cantos, ensinando e aprendendo, vendo e sendo visto, sentindo e sendo sentido. Sim, sentidos, todos eles. Até me desfazer em ti. Até não ter mais medo de ser vulcânico, erupção de mim a jorrar de felicidade por sentir a vida a pulsar forte aqui dentro, rejuvenescido e vingado pelas tuas carícias. Até deixar nos lábios cansados aquele gosto de quem não se contenta com o que a vida lhe dá e reclama por mais.