Laranjas

oranges

Já estava acordado muito antes de acordar. Os sonhos pareciam fugir ao se esfregar os olhos, descendo-lhe o rosto apressados para se esconder embaixo da cama. Deixou de lado os lençóis, a noite mal dormida, a vontade de sumir. À medida em que mergulhou na manhã, lembrou-se da culpa. É verdade, sentia-se culpado. Caminhou até a cozinha e fez um suco. Quem sabe um dia, talvez, a salvação esteja nas laranjas. Não estava. Lavou a louça com água fria, como se limpasse também a mente, mas certas manchas sempre escapam à ação purificadora do detergente. Lembrou-se de tudo o que já fez de ruim na vida. Não importava a quem, as circunstâncias ou as desculpas. Só restava um rio de mágoas. Tudo passando como um filme, na tela que os seus olhos projetavam nos azulejos da cozinha, com todos os detalhes. Talvez seja isto que chamam de inferno: envergonhar-se. E talvez, também, não exista pior sensação. Agora as lágrimas ajudam a lavar a louça. De cara lavada, decidiu que precisava se reinventar. Criar uma nova versão de si para não enlouquecer. O caos nunca foi seu amigo.

“…se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nosso ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprova-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”

José Saramago in “Ensaio sobre a cegueira”.

Só o que importa são esses momentos. Não precisar controlar o fluxo do que se sente entre a boca e os dedos. Apenas contemplar o copo, a música, a companhia, e sentir-se bem. Sentir-se tão natural comigo. Sentir-se fraco diante de tudo e, ao mesmo tempo, quase que invencível. Eu poderia correr uma maratona agora. Poderia gritar para a lua até a minha garganta sangrar. Poderia fazer os meus beijos derreterem na sua pele. E é inevitável não pensar. “Quantas noites como essa eu já tive?”. Talvez isso deixe de importar com o tempo. Há quem faça hoje noventa anos e outros para quem um terço disso conte como tanto. Eu gosto de onde estou agora. E só o que importa são esses momentos.

Estante

Persegui com o olhar
De um dia distraído
Não lembro o que pensava
Deixei ficar subentendido
Fiz contato mesmo assim
E quando dei por mim
Meu corpo passeava
Por toda a história
Que sua pele me contava
E eu absorvi cada palavra
Cada gesto enigmático
Cada sinal gráfico
Exclamações, interjeições
Levaram-me para dentro
De um mundo escondido
Que durou só o instante
De fechar as páginas de um livro
Com um ponto final
Você me deixou
Para viver eternamente
Na minha estante.

ero. lit. (8)

Marina fazia uma lista mental de todos os homens com quem já foi para a cama, como quem rezava um terço de decepções. Inúmeras vezes, para não ficar sozinha, ela se permitia a companhia de homens que a faziam envergonhar-se de si mesma. Fazia amor com eles como se estivesse de longe, vista de fora, uma personagem de filme, naqueles dias em que o desejo era algo desesperador, impulso incontrolável. Mas nunca se entregava completamente. Despia-se sem vontade de ser vista nua, em uma mistura curiosa de raiva, medo e tesão, envolvendo-se com tipos estranhos, homens que nunca a olhavam nos olhos, sujeitos que até lhe metiam um certo nojo, mas Marina parecia não se importar. Deixava-se montar pela frente e por trás, esquivando-se a todo custo de alguma tentativa de carícia mais íntima ou de um beijo mais profundo. Só queria se livrar daquele desejo, da fome que nunca se saciava, do vício que a deixava se sentindo culpada por aquele comportamento. Até vir o orgasmo e a fazer esquecer de tudo, sua vida, seu passado, seu nome. Depois ficava só à espera que eles acabassem depressa para poder ir se lavar, inventando uma desculpa qualquer que a libertasse da companhia daqueles homens que nada significavam. Porque o único que já significou algo, infelizmente, já tinha-se ido embora, perdido em alguma curva da vida.