“Secreto me acho
e secreto me sentes
quando
secreto me julgas,
Impuro me reconheço
quando
o nosso silêncio
são vozes turbas.
Dúbio é o desejo
quando
não é transparente
a água em que se deita
precavidamente.
Clandestinos somos
quando
o que somos
teme a face que pesquisa.
Os olhos são claros
quando
a superfície do espelho
é lisa.”

Fernando Namora in “Clandestinidade”.

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Quem sabe?

Vamos nos apaixonar. Primeira vez ou de novo. Várias vezes. Repetidamente. Pela mesma pessoa ou não. Não importa. Vamos mandar SMS de saudades a cada hora. Trocar olhares sincronizados de cumplicidade. Tirar fotos fazendo caretas. Transar como coelhos em uma Páscoa de chocolates compartilhados no sofá. As maratonas de filmes rolando até de madrugada. As histórias que teremos pra contar. Vamos passear mãos dadas sem se largar. Sentir aquela ansiedade idiota na barriga. Ficar bobos com a descoberta de nós, do mundo, de um universo de possibilidade em cima daquilo que sentimos. Vamos nos (re)conquistar. Ter altos e baixos, sofrer e se alegrar, é assim mesmo a vida. Brigar só para nos reconciliarmos de novo. E se acaso partirmos os corações uns dos outros, sempre podemos juntar os caquinhos, separar com cuidado, colar com Super Bonder e pintar de vermelho como novo. Vamos tomar banho de chuva por querer. Rir de tudo e todos. Montar a nossa playlist para cada momento. Fazer planos para Março, para Abril, para Maio, para o ano todo. Ficar grudentos até causar nojo nas pessoas que não suportam a felicidade alheia. Temos a liberdade de sermos ridículos sem nos importar com nada. Então vamos cuidar juntos do sentimento que plantamos no jardim. E quando acordarmos de manhã, com tudo em seu lugar, talvez, quem sabe, a vida não tenha mais sentido…?

“(…)

There are times I look at you differently
Like I’d never seen you before
Funny after all we’ve done
You could be someone I don’t know at all
(Don’t know you at all)”

“Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
de frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada …

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio …

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura que também vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo …

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!”

David Mourão-Ferreira in “Ternura”.

O homem cansado

O homem chega em casa cansado do dia, da vida, de toda a gente. Só pensa em descansar o coração alguns minutos no sofá, ler mais um parágrafo do livro que nunca termina, pegar o violão e fazer três ou quatro acordes, antes de se deixar vencer pelo cansaço. A mão fechada em punho não descola do queixo, sustenta a cabeça pesada do homem. Os olhos piscam ilusões sem significado. Chega o fim do dia, o fim da música, o fim da vida, e o homem não vê o fim de si próprio. Então suspira. Toma um analgésico, pois a cabeça parece explodir. Quer desesperadamente desfazer o nó da gravata, enquanto tenta cantar para afastar o cansaço, mas a voz teima em sair, porque há também um nó na garganta. O homem sente no peito aquela dor fina, aguda, de ansiedade, de impaciência, de espera para ficar cheio de alegria. Porque só a felicidade faz o cansaço deixar de ter importância.

Âncora

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Quando a brisa dos dias quentes
Trouxer as lembranças até a praia
E ondas tristes quebrarem nos teus pés
Fecha os teus olhos
E rodopia nos meus braços
Como se eu fosse em tua memória
O mais feliz dos momentos
O ponto de partida
De sorrisos sinceros
E lágrimas estranhas
Uma melodia qualquer
Que te invada a alma
Como o conforto de um domingo junto ao sofá
Contento-me em ser âncora
quando estiveres cansada de rodopiar
no vazio desse mar.

Tardes de inverno

Faz tempo que deixamos de existir. Sentamos no sofá e sorrimos para a nossa miséria. Tememos a nossa própria sombra e a desconfiança virou melhor amiga. Nem a velocidade do dia a dia nos desperta mais do embalsamamento em que estamos. Respiramos com a ajuda de aparelhos. Atravessamos mais um dia com a ajuda de pílulas milagrosas. Cada vez mais nos cercamos de coisas superficiais e o lento girar deste planeta sem eira nem beira deixou de importar. As noites não nos trazem mais sono nem descanso. A desolação nos encurrala. Procuramos senão o silêncio. Só o anonimato de uma vida vazia nos dá conforto agora. A fome nos emagrece. A riqueza nos envaidece. O amor… bem, o amor é uma história que só se escreve onde nunca estamos. Porque estamos longe de tudo. Viramos tardes de inverno.