A farsa

Deixa pra lá, não pensa mais nisso. Sim, foi tudo uma farsa, uma bela farsa, é bom que se diga, mas ainda assim uma mentira, um engodo, pura enganação. Não tem problema, todo mundo se engana de vez em quando. Mas daqui a quinze dias, ou um mês, dois, talvez, vai passar, vai deixar de importar, de doer, de incomodar quando deitar a cabeça no travesseiro e o silêncio da noite for como um mosquito zumbindo no seu ouvido. Você sabe, já houve outras farsas antes, outros cenários e atores. Quem pode nos culpar por cair em outras farsas? Talvez não entenda agora, mas você vai ver. Não precisa chorar. Não pensa mais nisso. Uma farsa é o que é, nem mais, nem menos. Esqueça o sentimento enganado, a fé traída, a piedade disfarçada, o mármore negro da consciência. Eu sei o que fica de uma farsa, também tenho as minhas cicatrizes. O meu sangue coagulado cola-se às sombras dos meus passos demorados. Eu sei. Guarda o que ficou de bom da farsa. Com ternura até, se puder. Se não puder, não tem problema. Mas não pensa mais nisso. Não joga tudo fora só porque foi uma farsa. Uma bela farsa.

Momentos

Receber um carinho inesperado
A minha avó cantando na cadeira de balanço
Um abarço apertado
Conhecer lugares novos
Fazer uma viagem inesquecível
Sempre me admirar de ver o mar
Dizer “eu te amo”
Conversar de verdade
Assistir ao show de um artista favorito
Um beijo que ficou na memória
Alguém contar um segredo
Beber até não sentir mais nada de ruim
Acordar me sentindo ainda péssimo
Ficar com dores na barriga de tanto rir
Brincar com meus sobrinhos
Um filme que emocionou
Um pesadelo que me acordou de madrugada
Um livro que me deixou pensativo
O dia em que tive vontade de morrer
Aprender com o meu passado
O sorriso da mulher que eu amo
O frio na barriga antes de dar um passo importante
Uma ferida que cicatrizou
Jantar com amigos
Os altos e baixos da minha autoestima
Ficar bonito para alguém
Receber um elogio sincero
Conversar com crianças
Dar flores e presentes
Tocar um instrumento musical
A primeira vez de muitas coisas
Brigar com a minha mãe e também fazer as pazes com ela
A agonia de me perder em algum caminho
Dormir no sofá, com a televisão ligada, em algum dia tedioso
Arriscar-me a fazer coisas novas
Cumprimentar um estranho na rua
Fazer sexo olhando nos olhos
Contar uma boa notícia e não saber como contar uma notícia ruim
Lidar com a morte de alguém
Tomar sorvete num passeio de fim de tarde
Cantar no chuveiro
Dançar sem ter vergonha
Tirar uma foto bonita
Dividir uma sobremesa
Não conseguir dormir com algo na cabeça
Subir num palco
Tirar a roupa de alguém
Ficar paralisado por algum medo
Aprender um língua nova
Ter sido magoado e ter magoado também
Pedir desculpas
Consertar algo quebrado
Ouvir música de olhos fechados
Um dia perfeito
Reconhecer-me em outra pessoa
Fazer amizades
Ter um lugar só meu
Cuidar da casa
Cuidar do meu amor
Esforçar-me para conseguir algo – e conseguir ao final
Passar pela seção de temperos do mercado
Ver que já não odeio fazer aniversário
Mudar com o tempo
Comer doce
Respeitar diferenças
Sentir-me diferente
Chorar escondido
Rir sem motivo
Escrever.

Não sei escrever de roupa

Não sei escrever de roupa. Escrever sem despir as ideias do peito enquanto desabotoo a camisa. Escrever sem retirar essa película transparente que me cobre a pele e me protege de tudo. Escrever sem palavras, sem pressa, sem rodeios subjetivos, sem pensar que devia estar fazendo outra coisa. Apenas concentrado na escrita. Conseguir escrever, seja encarando o ato como virtude ou maldição, prazer ou dissabor. Não sei escrever assim. Aliás, não sei escrever. Ponto. Invejo os poetas, os grandes pensadores, os ébrios exploradores da natureza humana, os loucos que transformam sentimentos em frases, sobretudo quando estas podem ser lidas de muitas maneiras e o leitor nunca sabe exatamente o que conduziu a escrita. Foi a realidade? Foi a ficção? Ou o simples juntar de palavras bonitas? Não, eu não sei escrever assim. Mas quero flertar com essa escrita de mim. Não para falar do meu dia a dia ou da minha opinião sobre as coisas. Escrever como não faço há meses, como costumava, e fui deixando de fazer por diversos motivos. Escrever sem pensar que alguém pode me ler o que tanto agrada quanto constrange. Porque gosto de escrever de coração nas mãos, deixando à mostra o meu verdadeiro eu, como se estivesse nu. Não sendo apenas o homem casado, funcionário público, metido à músico nas horas vagas e meio antissocial que vejo no espelho. Mas sendo eu mesmo. Aquele que provavelmente se adivinha em tudo o que escrevo, mas que nem sempre se reconhece. É como a roupa que cobre o corpo, cuja forma se vislumbra, mas não se sabe realmente como se é antes de estar despido. E é exatamente dessa nudez da alma que estou falando. Creio que essa nudez nos deixa muito mais expostos. Mas eu não sei escrever de outra forma. Não sei escrever de roupa.

ero. lit. (7)

Sabia como ninguém tocar os inesperados pontos. Brincava de explorar sem pressa cada pequeno canto, observar os arrepios da pele, testar as respostas, obter variáveis, dançar os ritmos. Sempre seguro de que não existe tempo verbal para explicar as delícias do prazer. Ele sabia fazer a combinação certa de delicadeza e pressão, de curiosidade e jeito, de calma e ansiedade. Achava bobagem falar-se apenas em “ponto G”. Dedo à dedo, possuía um alfabeto inteiro de possibilidades escancaradas nas concavidades do corpo dela. Pontos precisos que ele marcava como um agrimensor, GPS à postos, desejo em riste. Nomeando mentalmente os lugares especiais, os pontos fracos, os tratados universais do amor. Alfa, beta, gama, delta, épsilon, digama, zeta, eta, teta, até ômega. Este hábil tocador de campainhas.

Passional

“- Agora… você… sabe… como… eu… me… sinto…”, disse ela a cada golpe, pausadamente, como se desferindo algo muito maior e mais perigoso do que o pequeno canivete que portava, com a força de mil mágoas acumuladas a lhe pesar nos braços.

Antes de morder o lábio pela última vez, ele ainda teve tempo de dizer:

“- … o que é mais engraçado… é que um dia você já foi a melhor coisa que me aconteceu…”

O corpo já estava frio quando o encontraram, envolto em uma capa de sangue quase solidificado. As sete facadas recebidas, todas próximas à área do coração, indicavam claramente que tinha morrido de amor.

“(…)
How’d I end up here to begin with? I don’t know.
Why do I start what I can’t finish?
Oh please, don’t barrage me with questions to all those ugly answers.
My ego’s like my stomach- it keeps shitting what I feed it.
But maybe I don’t want to finish anything anymore.”