“(…)
And nothing’s going to change that hopeless feeling
I get when you say you’ll understand
And I know you can’t…”

Anúncios

Os dias estranhos

Há dias em que me sinto estranho. Como se não fosse eu. Não como se fosse outra pessoa, mas um espectador de mim, dos outros, da vida. Dias em que não estou aqui, mas em algum lugar distante, alheio a tudo, por fora dos acontecimentos, inatingível. Dias em que me vejo falar, sorrir, andar, mas parece que não sou eu quem o faz. Como se uma parte de mim agisse por conta própria, sozinha, enquanto a outra parte fica apenas assistindo. Ambas sem saber ao certo o que pertence ao meu mundo.

“Franz tinha mais ou menos doze anos quando a mãe ficara sozinha com ele, porque um dia, inesperadamente, o pai tinha-se ido embora. Franz suspeitou que estava a passar-se qualquer coisa de grave, mas a mãe disfarçou o drama com uma conversa neutra e ponderada para não traumatizar o filho. Foi nesse dia que, ao saírem de casa para dar uma volta pela cidade, Franz percebeu que a mãe tinha dois sapatos desemparceirados. Ficou aflito e quis preveni-la, mas teve medo de magoá-la. Passou duas horas com ela na rua sem conseguir despregar os olhos dos seus pés. Foi então que começou a fazer uma ideia do que devia ser o sofrimento.”

Milan Kundera in “A insustentável leveza do ser”.

Escrever coisas novas. Palavras que não costumo utilizar, frases que não ouso dizer, linhas mal traçadas sobre sensações que nunca experimentei ou lugares onde nunca estive. Deixar as letras soltas, sem definição, sem pressa, apenas à deriva nesse mar negro que me corre pelas veias. Jogar todos os ingredientes dentro da panela teimosa e insaciável que é a minha cabeça e levar tudo ao fogo. Passar por labirintos de sonhos e memórias, pelos loucos filtros do subconsciente, pelos diários tão cheios de observações cotidianas que nunca escrevi, pelas notas mentais que meus olhos criam a cada esquina ou minuto. A escrita sem arrependimentos, sem preconceitos, sem arrogância, rara sinceridade alcançada entre os copos meio cheios e meio vazios. Ver a minha escrita evoluir. Tornar-se diferente. Mas nunca indiferente.

“Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.”

— Nuno Júdice

ero. lit. (5)

Já haviam lhe dito que os músicos eram todos uns derrotados, uns tolos egocêntricos com ilusões de grandeza e que não valia à pena qualquer envolvimento com algum deles. Mas o que nunca ninguém havia lhe contado era sobre a loucura que se experimenta com as mãos de um músico passeando livremente em seu corpo, instrumento vivo a produzir sons involuntários, gemidos, suspiros, risos. Ele tinha a paixão na ponta dos dedos e executava acordes incríveis, ora selvagens, ora delicados, mas sempre precisos, afinados, na pauta musical que a pele dela agora formava. Ela nunca tinha sentido nada parecido. Estava completamente fascinada por aquelas mãos.

Playlist #4

Sugar Ray – Every Morning
R.E.M – Losing My Religion
Semisonic – Secret Smile
Oasis – Wonderwall
New Radicals – You Get What You Give
Sublime – Santeria
Green Day – Good Ridance
Blink182 – All The Small Things
Counting Crows – Mr Jones
Pearl Jam – Black
Bruce Springsteen – Streets of Philadelphia
Matchbox 20 – 3 am
Bush – Machinehead
Live – Selling The Drama
Faith No More – Falling to Pieces
The Cure – Pictures of You
Duran Duran – Ordinary World
Smashing Pumpkins – 1979
U2 – Stay (Faraway, So Close)
New Order – Regret
No Doubt – Just a Girl
Cake – Never There
Mr Big – Take Cover
Aerosmith – Cryin
Foo Fighters – Learn To Fly
Soundgarden – Black Hole Sun
Radiohead – Karma Police
Nine Inch Nails – Hurt
Red Hot Chili Peppers – Under the Bridge
The Verve – Lucky Man
Oasis – Champagne Supernova