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“The only obsession everyone wants: ‘love.’ People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you’re whole before you begin. And the love fractures you. You’re whole, and then you’re cracked open.”

Philip Roth in “The Dying Animal”

Doméstico

Escrevo qualquer coisa que não sei dizer
Nunca sei dizer
Qualquer coisa que valha
Que me resgate de mim
Às duas e quinze da manhã
Aglomero fragmentos
Palavras alinhadas
Sem encontrar sentido algum
Todo o resto é repetição
Tudo o que importa já foi dito por outros
Quem sou eu para o tempo?
Pobre animal domesticado
Imaginando o teu corpo à meia luz
E a desejar ser engolido pelos teus olhos
Até desaparecer completamente.

Short stories

Basta adormecer para que pequenos sonhos se sucedam uns aos outros. Curtinhos, pouco detalhados, atemporais. Sonhos bizarros, loucos, eróticos, engraçados, tristes, felizes. Tenho sonhado com praticamente todo mundo que já conheci, além de sonhar com desconhecidos e com outras vidas (que não a minha). Tem acontecido com bastante frequência. Parecem-me exercícios de aquecimento, a imaginação a regular alguma engrenagem solta, a mente a descarregar alguma informação que não compreendo bem. E é curioso, sabe? Veja bem, uma pessoa tem que dormir, descansar, recarregar as energias para o dia seguinte. Mas enquanto dorme, acontecem histórias dentro dela, ideias, imagens, sons, tudo ao mesmo tempo. Pedaços de filmes, quase tão divertidos quanto ir ao cinema, deixando no ar aquela vontade de ir dormir de novo. Só acho uma pena nunca conseguir me lembrar de muita coisa depois.

Nó cego

Tudo corre manso quando está alinhado no tempo. Os dias seguem o fluxo natural previamente traçado pela rotina. De vez em quando, há fios que querem se soltar, rebeldes, desprendidos. Não querem ser iguais a outros dias. Mas acabam se dobrando, por preguiça ou ausência, à covardia apática da rotina. Até um dia, de repente, um fio ser puxado com bastante força, e toda a tapeçaria do nosso mundo se desfazer num piscar de olhos. Só nos restam os dias loucos. Aqueles que nos sacodem de verdade, que nos lembram que estamos vivos e que enlaçam nos nossos fios uma espécie de nó cego, que nunca mais na vida conseguiremos desfazer. Muito menos esquecer.