Como o cheiro do café

 

Começou de uma espera distraída. Fazia uma tarde ensolarada, dessas em que o calor apenas deixa todos um pouco mais vivos, sem estragar a beleza do clima. Ele deu uma pequena pausa em suas ocupações cotidianas para observar pelo vidro da janela o movimento na rua, os carros a passar, a pressa das pessoas, enquanto apreciava um fumegante cappuccino na cafeteria em frente ao prédio do trabalho.

Era uma tarde qualquer, mas ele não soube explicar como suas mãos sobre a mesa do café ficaram repentinamente tão fracas e inúteis, o coração a palpitar-lhe diretamente no pescoço. Como um raio que adivinha a tempestade que se aproxima, um clarão lhe atingiu os olhos, deixando-o sem ar, sem forças, sem vida.

Logo o café passou a ser apenas uma desculpa. Porque a pausa girava em torno dela. A inexplicável ânsia de vê-la diariamente na cafeteria, durante aqueles míseros vinte e poucos minutos (ela nunca se demorava mais que isso), tornava as tardes mais agradáveis, tornava mais leve o lento arrastar das horas até o final do expediente.

Quando ela não aparecia, ele entrava num estado de impaciência tão grande que só tinha fim quando a via entrar novamente na cafeteria no dia seguinte. Era quando podia ouvi-la dizer “boa tarde” ao atendente e pedir o mesmo café de sempre, num tom melancólico quase imperceptível, que só ele notava, ainda que de certa distância.

Imaginava como devia ter sorte aquele atendente careca e sisudo. Poder ouvir diretamente aquela voz, olhá-la nos olhos de perto, sentir melhor o suave perfume que dela emanava toda vez que adentrava na cafeteria. Se fosse o atendente, teria oferecido o melhor café do mundo em troca do fiel retorno dela nos dias seguintes. Se fosse o atendente, tentaria tocar de leve as mãos dela ao entregar a bebida quente e, quem sabe, conseguir um sorriso. Ou então, daria algum desconto no preço. Ou talvez, até, deixasse de cobrar pelo serviço. Sabe-se lá.

Enquanto ele se imaginava dono do estabelecimento e pensava em quais facilidades poderia oferecer, ela se sentava devagar, posicionava o café do lado direito do corpo e ficava a mexer o açúcar distraidamente, mirando a rua através da vidraça durante algum tempo, com um olhar meio desiludido da vida, mas, de alguma forma, bonito e charmoso. E ele, da sua mesa de canto, ficava a observa-la demoradamente.

Crescia dentro dele uma espécie de ternura pelos gestos mais despercebidos dela: o sorriso doce e triste, a forma como mexia nos cabelos, como cruzava as pernas ao sentar, a curiosidade de saber que anotações ela escrevia numa agenda colorida que sempre trazia junto ao peito ou com quem falava ao telefone, vez em quando.

Mais do que um hábito, ou qualquer outra coisa, aqueles encontros vespertinos haviam se tornado uma necessidade. Como se ele precisasse daqueles vinte e poucos minutos de constrangimento e inquietação para sentir-se bem. Como se ele visse aqueles intervalos de sua vida com algum significado maior do que a simples interrupção cotidiana para se tomar uma bebida quente e estimulante.

Não estava apaixonado. Sempre acreditou que o amor era apenas um componente numa infinita e complexa teia de sentimentos ainda maiores e sem nome. O que sentia por ela era algo que não sabia nem queria dizer, porque temia estragar aqueles pequenos momentos. Encontros de uma fragilidade tão latente que faziam com que ele fosse à cafeteria todos os dias, no mesmo horário, ainda que doente ou ocupado demais no trabalho.

Nunca trocaram palavras. Possivelmente, nem olhares. Ele pensava se toda aquela pausa não passava de uma mera distração em sua cabeça. Seus sentimentos eram, notadamente, unilaterais. Qualquer aproximação lhe soava invasiva. Enquanto esperava o café esfriar um pouco, de modo a não se queimar, gostava apenas de imaginar as infinitas possibilidades de algo que nunca existiu. Um romance tão platônico que até tornava a expressão inútil. Por isso, agarrava-se ao seu próprio sentimento. Bastava-lhe contemplar todas as cores invisíveis daquilo que sentia por dentro.

Até que um dia ela não apareceu. Nem no dia seguinte. Nem no dia depois. Nem nas longas semanas que se seguiram.

Resolveu, então, passar mais tempo na pausa do café, temendo que ela eventualmente pudesse aparecer nas escassas horas em que ele não estava lá ou talvez tivesse mudado o horário. Passou a frequentar o local também nas manhãs e noites. Na cafeteria, já era conhecido como o melhor cliente. Era tamanha a frequência que o atendente careca e sisudo já o chamava pelo nome. No trabalho, os colegas comentavam da agitação e diziam que ele talvez devesse beber menos café. Em casa, sentia-se desolado e inquieto.

Mas todo o esforço foi em vão: ela nunca mais apareceu. E o cappuccino deixou de fazer sentido, ficou ralo, perdeu o sabor.

A ansiedade que antes dele havia se apoderado deu lugar a uma angústia acanhada. Começou a sofrer uma espécie de ressaca muda de um relacionamento que jamais teve início e cujo fim precoce parecia devorá-lo por dentro. Porém, nunca, em hipótese alguma, ousou chamar aquilo de amor. Era apenas um sentimento que dele saía livremente, flutuava no ar como o cheiro do café, na vã esperança de que ela pudesse senti-lo naquela pequena cafeteria.

 

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Gosto das pequenas coisas. Do teu cabelo emaranhado de manhã. De remelas ao canto do olho. Das conversas durante o café, regadas a torradas e iogurte. Olho para o lado e tenho ainda os teus cabelos emaranhados, aconchegados em meu ombro.

“A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras.”

Roland Barthes in “Fragmentos de um discurso amoroso”.

Não é fácil aprender a impor regras, a estabelecer limites saudáveis, na plena convicção de tudo ir se tornando mais simples com o passar do tempo, para depender menos a cada dia, para deixar de querer garantia das pessoas e de criar expectativas sobre tudo.

Piloto automático

Coisas que nos prendem ao que somos. Imagens, sons, tempo. Dias e dias e dias. Como proceder? Não nos resta muito. Caminhar porque se tem de seguir. É proibido esperar, é o que dizem. Sorria, se possível. Sonhe, se não for muito incômodo. Na noite mais escura, no dia mais longo. Fazer de conta que o presente é o que conta, que o passado já morreu e o futuro a Deus pertence. Deus? Troco de canais com a mesma velocidade em que o pensamento me escapa. Procuro manter distância do que me provoca. Metros, quilômetros, anos-luz. Abraços e beijos vazios. Amenidades pré-fabricadas. Saber que piora, que sempre piora. Desistir não é mais opção. Como sobreviver? Ligar o piloto automático. Na maior parte dos dias.

Resta um

resta-um

Eu queria o inatingível. Queria iluminar o teu corpo e me agarrar a essa luz. Para desenhar os contornos, moldá-los, aprisioná-los em uma moldura de cor e me perceber de ti pelos teus olhos. Eu queria trazer essa luz improvável para onde ninguém mais chegou. Chegar ao fundo, ao momento em que a anatomia da pele se confunde com as faíscas em nossos cérebros. Deixou de haver timidez em mim quando aprendi a te contemplar com os meus dedos, com a minha língua, com todos os meus sentidos, toda, inteira. Mas sempre parecia faltar algo. Sempre parecia haver algum lugar secreto que não alcançava o meu desejo, o meu pensamento, o meu olhar, a minha intenção, o meu sexo, o que fosse.

Hoje eu só queria coisas boas

Eu sei que em algum lugar do mundo, neste exato momento, algo ruim está acontecendo. Eu sei que alguém está sendo abusado. Eu sei que alguém decidiu acabar com a própria vida. Eu sei que uma mãe vai perder um filho. Eu sei que alguém leva as mãos à cabeça e se desespera porque não sabe como pagar uma dívida. Eu sei que alguém não jantou porque não tinha o que comer. Eu sei que alguém descobriu que tem uma doença terminal. Eu sei que em algum lugar, alguém simplesmente não entende como se pode sorrir e ver beleza no mundo. Eu até sei. E, no entanto, tudo o que eu mais queria agora era simplesmente ignorar os apelos externos, as cobranças, as injustiças, as mazelas e dores do mundo. Não consigo me livrar do egoísmo deste sentimento de apenas querer coisas boas. Hoje eu só queria coisas boas.