Gosto das pequenas coisas. Do teu cabelo emaranhado de manhã. De remelas ao canto do olho. Das conversas durante o café, regadas a torradas e iogurte. Olho para o lado e tenho ainda os teus cabelos emaranhados, aconchegados em meu ombro.

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“A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras.”

Roland Barthes in “Fragmentos de um discurso amoroso”.

Não é fácil aprender a impor regras, a estabelecer limites saudáveis, na plena convicção de tudo ir se tornando mais simples com o passar do tempo, para depender menos a cada dia, para deixar de querer garantia das pessoas e de criar expectativas sobre tudo.

Piloto automático

Coisas que nos prendem ao que somos. Imagens, sons, tempo. Dias e dias e dias. Como proceder? Não nos resta muito. Caminhar porque se tem de seguir. É proibido esperar, é o que dizem. Sorria, se possível. Sonhe, se não for muito incômodo. Na noite mais escura, no dia mais longo. Fazer de conta que o presente é o que conta, que o passado já morreu e o futuro a Deus pertence. Deus? Troco de canais com a mesma velocidade em que o pensamento me escapa. Procuro manter distância do que me provoca. Metros, quilômetros, anos-luz. Abraços e beijos vazios. Amenidades pré-fabricadas. Saber que piora, que sempre piora. Desistir não é mais opção. Como sobreviver? Ligar o piloto automático. Na maior parte dos dias.

Resta um

resta-um

Eu queria o inatingível. Queria iluminar o teu corpo e me agarrar a essa luz. Para desenhar os contornos, moldá-los, aprisioná-los em uma moldura de cor e me perceber de ti pelos teus olhos. Eu queria trazer essa luz improvável para onde ninguém mais chegou. Chegar ao fundo, ao momento em que a anatomia da pele se confunde com as faíscas em nossos cérebros. Deixou de haver timidez em mim quando aprendi a te contemplar com os meus dedos, com a minha língua, com todos os meus sentidos, toda, inteira. Mas sempre parecia faltar algo. Sempre parecia haver algum lugar secreto que não alcançava o meu desejo, o meu pensamento, o meu olhar, a minha intenção, o meu sexo, o que fosse.

Hoje eu só queria coisas boas

Eu sei que em algum lugar do mundo, neste exato momento, algo ruim está acontecendo. Eu sei que alguém está sendo abusado. Eu sei que alguém decidiu acabar com a própria vida. Eu sei que uma mãe vai perder um filho. Eu sei que alguém leva as mãos à cabeça e se desespera porque não sabe como pagar uma dívida. Eu sei que alguém não jantou porque não tinha o que comer. Eu sei que alguém descobriu que tem uma doença terminal. Eu sei que em algum lugar, alguém simplesmente não entende como se pode sorrir e ver beleza no mundo. Eu até sei. E, no entanto, tudo o que eu mais queria agora era simplesmente ignorar os apelos externos, as cobranças, as injustiças, as mazelas e dores do mundo. Não consigo me livrar do egoísmo deste sentimento de apenas querer coisas boas. Hoje eu só queria coisas boas.