O que será da noite? Quero escrever de lugares inesperados. Quero escrever para me libertar. Deixo o sono para depois de mim. Planejo me perder nos campos altos de onde nunca chove. Deserto da consciência. Escrevo para esquecer de tudo. Enquanto sangra a memória nessas paredes brancas. O que será de mim? Já passa da meia-noite e o raro efeito (rarefeito?) do álcool atropela as páginas embriagadas. É cirúrgico o céu aberto deste peito. Adormeço assim, insinuando-me por meio de palavras enviesadas. Não sei dizer se bebo por medo ou por ilusão. Acenderia um cigarro se pudesse. Pequeno incêndio a queimar as falhas do tempo.

Anúncios

Trajeto

Procuro nos bolsos um tempo que não tenho. Encontro um escrito que não me recordo, esquecido no fundo de um dia qualquer. Duas ou três linhas de silêncio. Poema inacabado. Como uma tarde de passos abandonados pela casa. Até que a noite cai. Noites em que fingimos não se importar. O abismo do lugar-comum. Então aconchego os olhos à luz das luminárias. Entre meus dedos não é um cigarro que arde: são apenas memórias. Mas não me queixo. Respiro. Retorno. É quase insuportável o cinismo. As desculpas que arranjamos para nos proteger. Afinal, nunca amadurecemos tanto, nem o suficiente, quanto pensamos. E me vem aquela canção ao pensamento. Pois toda a canção é uma pergunta suspensa no ar. Paredes brancas. Livros por terminar. Conversas entre parênteses. Reticências sobre a pele. Nada se levanta do corpo. Inevitável não pensar na minha vida como um punhado de inícios interrompidos. Respira. Retorna. Repete. A velha mania de deixar tudo inacabado. E ninguém, ninguém mesmo, pode me salvar dessa vontade de partir. Mas não sou início nem chegada. Sou trajeto indefinido. Paradigma de nunca chegar. Enquanto me vejo movido por esse desejo absurdo de seguir adiante.

“Creio que o mais egoísta dos homens é aquele que recusa dar aos outros a sua fragilidade e as suas limitações. Quem recusa aos outros a sua pequenez, comete um dos mais infelizes gestos de prepotência. E porque aí se rejeita, aos outros não poderá dar senão o sofrimento da perda. Querendo-se sem falha, será o mais incompleto dos seres.”

Daniel Faria in “O Livro do Joaquim”.

Outra vida

Não acredito existir outra vida além desta. Talvez seja uma alegação triste, vinda de gente materialista e cínica, mas é que eu vejo a finitude da vida como uma parte fundamental de nós: a parte que nos obriga a dar o nosso melhor, porque nunca se sabe o que ainda temos. Não há razão para se inventar desculpas. O que vivemos hoje, aqui, agora, é o que temos de nós. Não há botão de repeat, rewind, fast forward ou afins, meras funcionalidades de eletrodomésticos que não se aplicam a nossa existência. O único passado que existe é o que já vivemos. Aquele que trazemos agarrado ao corpo, em carne viva, em ferida ou em pele sarada e nova. O que erramos ontem, certamente ainda erraremos hoje ou amanhã, seja porque não aprendemos muito com as lições ou seja porque há coisas que não podem ser corrigidas em outra vida. Karma é só um estado de espírito. É aqui, neste mundo, com esta vida, com este rosto, com estas mãos, com esta voz, com este olhar, com este corpo, que nos enrolamos e desenrolamos em novelos de histórias de amor, de amizade, de alegrias e de lágrimas. Sei bem, corro o risco de soar piegas e superficial. Mas realmente acredito que o que não vivemos agora, não viveremos depois de mortos. Mortos, somos tudo aquilo que fomos e o que deixamos de ser, aos olhos de quem ainda fica. Chego à conclusão de que acreditar numa outra vida é para gente pretensiosa. Não é para mim.

“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros”

— Manoel de Barros