As melhores conversas

Falar nem sempre é conversar. Falar é fácil, automático, descomprometido, desleixado. Fala-se por falar e, muitas vezes, não se quer nem ouvir ou dizer nada. Conversar, não. A verdadeira comunicação é exigente. Requer cuidados. Demanda tempo. Faz a gente descascar-se como cebola, abrir o peito sem medo, sem pudores, e deixar-se tocar, expor, expressar, em um processo mútuo de troca. As melhores conversas são aquelas em que há essa reciprocidade. Palavras ditas entre álcool e cigarros. Frases soltas ao pé da cama, com os corpos despidos de qualquer coisa. O pensamentos a ganhar asas, a fugir leve de cada um. Comunicação a irromper, no cruzar das vozes, no ouvir das coisas mais tímidas até as mais absurdas, nas lembranças de tudo o que existiu – ou de tudo o que queria que se existisse. As melhores conversas são aquelas que deixam a impressão de que foram, na sua breve existência, como um bom diálogo de filme, desses que se assiste e grava as falas na memória por muito tempo. Deixam a vida mais bonita, ainda que nem sempre façam sentido. Sem essas conversas, que muitas vezes nem sequer tem o devido reconhecimento de nossa parte, tudo seria apenas preto e branco, nem a coexistência das duas cores seria permitida. As melhores conversas são linhas que se atam e desatam, que experimentam novas combinações, que se enrolam às pernas, que articulam os gestos, que puxam o sorriso, que pescam lágrimas, que prendem um ar seco na garganta. Ainda que tudo pareça deixar de existir quando pousamos o copo na mesa e vamos para a cama.

Anúncios

Seu escritor

Não gosto muito do filme Closer (2004), com exceção de algumas passagens memoráveis, da incrível trilha sonora e das fabulosas interpretações dos atores. Há uma cena em especial que acho bem interessante, na verdade, uma exclamação esfregada pelo personagem de Clive Owen na cara de Jude Law:

closer-2004-“- Go fuck yourself! You writer.”

O insulto é mais do que merecido. No filme, o escritor interpretado por Jude Law vampiriza a namorada (Natalie Portman, linda como sempre) como modelo para um romance. O romance fracassa. O namoro fracassa. Com o romance, Law conhece uma fotógrafa (Julia Roberts, igualmente bela) com quem tem um caso. O caso também fracassa.

“You writer”, diz Owen. E diz bem. Escritores são todos uns sacanas mesmo.

Poças

Queria atirar-me de penhascos invisíveis. Voar livre no silêncio da noite. Mergulhar no torpor do meu cansaço. Chegar ao final de cada linha e fazer sentido, e me fazer sentir, e me fazer melhor. Queria dizer, e que fosse verdade, que o peso de tudo não me incomoda mais e que posso me distrair o quanto quiser, entre goles e risos de uma mesa de bar, de uma noite qualquer, com pessoas diversas. Queria espremer o líquido ácido deste peito negro como se fosse uma fruta, natureza morta pelas minhas mãos. Penso muito, pelas madrugadas, a contemplar a minha própria passividade, e penso também em escrever, na vã ilusão de retirar esse petróleo a jorrar infinito de dentro de mim. Às vezes parece que nunca adormeço. Fecho os olhos por breves momentos, aqueles em que reflito por nada e sem relevância, fico apenas parado a avaliar as coisas que me ocorrem. Estou certo de que escrever é um trabalho sujo. Mas desde pequeno eu gostava de pisar em poças.

Status quo

A estranheza é a mesma. Essa tendência de que tudo volte ao estado de antes. Iludir-se com a ideia de mudança, porque tudo permanece igual, apesar dos protestos e esforços. Tudo do mesmo jeito, em coisas que se repetem continuamente. Sempre a mesma história. As mesmas conversas. As mesmas pessoas, vestidas de outras. Mas as mesmas. O mesmo cigarro. A mesma cerveja. O mesmo bar. A mesma música, com outras notas. Mas a mesma. O mesmo livro, de autores diferentes. Mas o mesmo. O mesmo planeta. A mesma vida, com as suas mesmas razões e circunstâncias. O mesmo encanto, que vira desencanto, até se encantar novamente. Mesmo que seja estranho.