Afinal, somos a ideia que fazemos de nós mesmos. Somos as sobras de tudo aquilo que nos atinge. Crescer não passa de um longo e dolorido despertar, ao qual nem sempre nos damos conta. Passa o tempo, passam pessoas, passa a vida. Muitos de nós ainda dormem esperando por algo. E, às vezes, chega o fim de tudo, ainda que metaforicamente falando, sem que a espera nos seja útil de alguma forma. No fim, somos apenas os restos por acabar de corações partidos, entre erros e acertos, imagens gravadas no tempo, momentos eternizados na memória, cheiros, sabores, olhares, toques. Mas acima de tudo: de esperança no que ainda está por vir.

Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

Maria Teresa Horta

Há dias

Há dias em quero me manter acordado tanto quanto possível
Há dias em que o sono não me tira do meu torpor
Há dias em que escondo o meu cansaço
Há dias em que não quero ser quem sou
Há dias em que me proibo de pedir ajuda
Há dias em que me esqueço de medir as palavras
Há dias em que mordo os lábios e esfrego as mãos
Há dias em que abro exceções de mim
Há dias em que nada serve de consolo
Há dias em que tudo já foi dito
Há dias que talvez nunca se bastem
Há dias que nunca chegaram
Há dias que rasgam a memória
Há dias que destroem o presente
Há dias que pousam na vida sem se ver.