“Does anyone know where exactly and idea comes from? With me all fiction begins with pictures in my head. But where the pictures come from I couldn’t say.”

— C. S. Lewis

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Pensei em criar uma história com personagens bem construídos, com diálogos inspiradores e cheia de frases feitas. Mas não consegui me separar da narrativa. Porque nem sempre consigo me separar do que escrevo. A verdade é que o que escrevemos nem sempre se distancia de nós próprios. Talvez, quem anda assim tão metido consigo mesmo, dificilmente consiga saltar seus próprios muros, a fingir ser quem não é e esgueirar-se por trás de palavras escorregadias. Se duvidar, cabe-nos apenas deixar uma pichação nas paredes sujas que todos têm dentro – Fulano de Tal esteve aqui! – e ir preenchendo com o que dá o resto dos nossos dias.

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto in “Poema da despedida”

Maus hábitos

É noite de sábado. Reúno todos os meus maus hábitos para trocar uma ideia em algum lugar com cerveja decente e música razoável. Eu e meus defeitos sempre nos divertimos muito. Ninguém nunca está só se tem uma boa bebida, por mais deprimente que a frase possa soar. Bar lotado. Jovens histéricas gritam junto ao palco. Uma banda cheia de rostinhos bonitos toca alguma coisa que realmente não conheço – e talvez ache uma droga. Não sei, ainda não formei opinião. De longe, bebo e tento apreciar aquela confusão sonora com alguma dificuldade. O jovem vocalista parece um surfistinha virgem da Califórnia. Aquele tipo de rosto que você tem vontade de socar sem motivo, sem maiores divagações sobre o instinto masculino de destruir coisas. Não entendo nada do que o rapaz diz, mas não consigo dizer se é algum problema no microfone (ah, se tudo na vida se resolvesse com um pouco de fita adesiva ou cuspe…) ou se o sujeito é ruim. Não, parece que o cara é ruim mesmo. Foda-se, a molecada gosta. O público fica ali naquela alimentação com o palco e vice-versa. Corpos suados se amontoam enquanto sinto o cheiro de bebida misturar-se aos perfumes extremamente adocicados das moçoilas do lugar. Acho uma merda mulher usar perfume doce demais, tira o charme natural, o cheiro de tesão, aquilo que dá uma descarga elétrica no corpo da gente. Falando em aromas, estranhamente não sinto cheiro de cigarro ou de nenhuma outra manifestação química típica do rock ‘n roll, o que me deixa um pouco triste com estes novos tempos. Saudade da loucura-boa-porém-pouco-saudável dos roqueiros de antigamente. Bem, a banda toca, apesar de mim. Não me importa o nome. Fodam-se os nomes também. O que importa é o que nos fazem sentir. Continuo não entendendo nada. Mas confesso que estou curtindo o instrumental. Às vezes, nem sei como me arrisco a sair de casa se sei que vou ficar criticando mentalmente tudo e todos. Mas como eu disse antes: maus hábitos. Sou um especialista. Um poço sem fundo de encrencas e vícios. Mais alguns goles e começo a me lembrar do meu pai, de quem aprendi vários hábitos ruins. Certa vez cheguei em casa e o encontrei dormindo bêbado e sujo de vômito no chão frio da cozinha. Depois de limpá-lo e colocá-lo na cama, ele se virou pra mim e disse “você é um filho da puta, mas um dos bons”. Nunca me esqueci desse dia. Cada um diz “eu te amo” como pode e aquela era a forma dele. As garrafas vazias de cervejas já se agrupam na mesa e começam a fazer amizade umas com as outras. Entre uma lembrança fodida e outra, lembrei-me de Beatriz, uma de minhas primeiras namoradas. Apaixonei-me perdidamente por ela quando tinha meus dezoito ou dezenove anos. Ela tinha um andar escorregadio que me deixava a salivar e uma voz segura de mulher-menina. O cheiro dela agarrava-se a mim e só saía depois de eu tomar banho, ainda que decorressem horas. À sua maneira, sei que gostou de mim, mas era bonita demais para que pudéssemos nos encaixar. Acabei soltando-me dela, deixei-a ir. Agora o dia já vai amanhecendo num tom de azul particularmente bonito. Às cinco e meia da manhã, os sons dos pássaros a cantar, na verdade, são as buzinas dos motoristas madrugadores desta cidade que não para nunca. O lado ruim do dia nascer é que com ele nascem também todos os ruídos parasitas que eu escuto no meu quarto todos os dias e assim me tiram qualquer vontade de dormir ou viver. Mas, exausto como estou, provavelmente não ouvirei nada hoje. Sei que meus maus hábitos ainda vão acabar comigo. Só que, às vezes, eles são tudo o que tenho.

“um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei
entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz
compreenderá a impossível compreensão do amor. um dia, quando
a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante,
quando o frio responder devagar como a voz arrastada de um velho,
estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela.
sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa
minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma
palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a
perfeição da felicidade.”

José Luís Peixoto in “A criança em ruínas”.