Dois

Dividimos a mesma cama. Aquela em que acordamos juntos todos os dias, em horários diferentes. Compartilhamos o mesmo teto. Paredes feitas de muito mais que tijolos e concreto. Levamos por aí as mesmas incertezas, os mesmos sonhos, os mesmos desejos, virando as páginas dos dias. As nossas escovas de dentes repousam no mesmo local – e gosto de pensar que, talvez, elas fiquem a namorar quando estamos ausentes. É como se carregássemos um ao outro pela vida, sem perceber, sem notar, sem reparar o que nos une, enquanto escolhemos a próxima música a tocar no caminho para o trabalho e ficamos a cantarolar juntos. Quando o sinal fecha, os nossos sorrisos se encontram. Lá pelas tantas, caminhamos de volta para casa no mesmo compasso, de mãos dadas, parando um instante para ver o nosso reflexo em uma vitrine de loja qualquer. Ao entardecer, eu entrego as chaves de casa e, no final de mais um dia, você diz que me ama e me abraça com o mesmo coração acelerado de sempre.

Envy

O problema é querer demais as coisas. Coisas cuja ausência só existe dentro de nós. Coisas cuja origem é tão profunda que nos perpassa e nos aterroriza. Coisas que se cobiçam, e isso já é errado e feio o bastante, pois já basta a vida que temos para nos tirar do sério. Coisas que não são nossas e o máximo que podemos fazer é tentar não estragá-las. Não nos pertencem. E não as dizemos. Simplesmente evitamos o olhar que nos entrega. Existem tantas coisas que não temos que não sabemos se seríamos os mesmos se as tivéssemos. Mas e se? Memórias não construídas são as mais devastadoras.

Sofia

Permaneceu de olhos fechados, muito embora já estivesse acordado há algum tempo. Ouviu a gata miando do lado de fora do quarto, a pedir companhia. Levantou-se, abriu a porta e voltou a deitar. Algum tempo depois, um ronronar acompanhava o subir e descer da respiração em seu peito. Abriu seus olhos e encarou o pequeno animal. Lembrou que lhe disseram, certa vez, que existiam casos de mortes causadas por ataques de gatos e perguntou à criaturinha que agora olhava pacificamente para ele se ela, por acaso, não trazia uma faca ou um revolver escondido embaixo do pelo. Ouviu apenas “miau” em resposta. Achou graça. Dobrou as pernas, erguendo os joelhos, assustando o pobre animal com o movimento súbito e ficou de novo sozinho. Vestiu-se e tomou só um copo de água, não se sentia disposto a comer nada. Apenas a gata, Sofia (era este o nome dela), parecia sentir fome. Ela devorou a ração rapidamente e já estava parada olhando pela janela o mundo lá fora, quando ele se sentou no sofá, retomando a leitura da noite anterior. A sala estava fria e não parecia muito aconchegante naquele momento. Não via ninguém há bastante tempo e não se importava muito com isso. Sentia-se bem, frio e sozinho, mas bem. Passou-se quase uma hora antes de terminar o livro e de se dar conta de que as costas lhe doíam. Levantou-se silenciosamente e passou os olhos pela estante, como se decidindo mentalmente o que ler em seguida. Esbarrou em um porta-retrato, fitando-o por alguns instantes. Lembranças de quando aquela fotografia não era apenas uma memória na estante. Voltou a procurar o que ler. Queria distração. Contos rápidos, cheios de suspense, mistério e coisas sobrenaturais. Alcançou alguma coisa de H. P. Lovecraft e deitou-se novamente no sofá. Lá fora, um gato miou e Sofia pareceu lhe responder da janela.