Com a idade, vão se ganhando vícios e virtudes até então desconhecidos. Vão se perdendo cabelos e sono, vão se esquecendo nomes e datas, vão desaparecendo lentamente a coragem e a iniciativa. E, às vezes, é difícil conseguir encontrar coisas que realmente nos aqueçam o coração. Mas não vale à pena reclamar do tempo e usá-lo como desculpa para fugir de tudo. A cada ano, fazemos uma série de escolhas na vida. Estudos, trabalho, amizades, amores, sonhos. E a cada momento, questionamos e tentamos, bem ou mal, seguir em frente com as nossas decisões, da melhor forma possível. Se deixamos de dormir ou sonhar, por vezes, uma hora acaba-se entendo o que os mais velhos e os livros sempre tentam nos ensinar. A lição de que, mesmo que algumas chamas se apaguem dentro da gente, há espaço de sobra para outros incêndios.

As vozes

O telefone mal tocou e ela já sabia, antes mesmo de verificar no identificador de chamadas, que era ele. E se viu invadida de novo por uma sensação tão boa, como se ainda fosse habitual receber ligações dele, como se a última vez tivesse sido nos últimos dias.

A cabeça já tinha afastado aquela ideia. Mas as mãos, os ouvidos e o coração reagiram de sobressalto, como se ouvir a voz dele fosse a melhor coisa do mundo.

As palavras trocadas foram quase as mesmas das outras vezes, a disfarçar, como nas outras vezes, palavras que só eram ditas na cabeça de cada um deles. Telepáticas comunicações que, acaso pudessem ser captadas, reafirmariam em alto e bom som o quanto gostam de ouvir a voz um do outro.

As vozes. A vida deles poderia ser feita só de vozes. Vozes cada vez mais espaçadas, em ecos que se repercutem por dias, semanas, meses, disparando o gatilho da memória e acalmando o silêncio dos corações.

Ele perguntou alguma coisa sem importância. Depois, ela lhe disse que tinha pensado nele naquele mesmo dia. E, de fato, tinha. Jurou por Deus e pela saúde dos filhos. Ele sorriu, do outro lado da linha.

Ela dirigia pela estrada e o sol inundava o carro de bem-estar, sobretudo naquela tarde tão diferente das dos últimos tempos, cinzentas e chuvosas. E ficou a pensar nele, onde estaria e a fazer o quê. E ali estava a sua voz, a circular por dentro do carro, como o ar-condicionado. Sentia-se flutuar, como tantas vezes já aconteceu, sem outra explicação a não ser a de que não há explicações, há sentimentos. Sentimentos que perduram para além do tempo e da distância. Alimentados pela voz de quem sente.

Fireworks

fireworks

Sou só um corpo. Branco, franzino, lento. Só um corpo. E a afirmação não me basta, não encerra metade do que queria dizer de mim, dos outros, do mundo. Um corpo ainda cheio de vida, de aceitação, de bondade. E que também tem seus momentos de falha, de vergonha, de maldade. Um corpo humano, tão humano quanto se pode ser. Mas sempre procurando algo melhor, talvez a própria evolução, ainda que se resuma a um lugar para repousar minha cabeça ao fim do dia, sejam eles chuvosos ou ensolarados, tanto faz. Só preciso de um lugar, físico ou não, um ombro amigo, um texto bonito, um sorriso de criança, um beijo apaixonado. Sou vários ao longo do dia e, às vezes, nas noites e madrugadas, sou ainda eu, mas de diferentes jeitos, em outras versões de mim. Porque quero me rodear de caras e formas. Quero falar de tudo, botar pra fora, tirar de mim todo o excesso em que me afogo, de bastante a pouco. Nem sei o que sou, se me agarro ou me desprendo, se ajudo ou atrapalho, se vou tarde ou venho cedo. Só sei do me agride ou agrada. Então me visto para aparentar e causar boa impressão, mas a verdade é que tenho explosões aqui dentro, fogos de artifícios a iluminar o céu do meu peito. Não preciso de muito cuidado, nem exijo muito da vida. Mas tenho em mim grandes esperanças. E, às vezes, não sei bem do que falo ou escrevo, pois minha cabeça é sempre este caos pensante, um misto de coisas sem contexto mesmo, é o que é pra ser, sou assim, já nem luto contra. Pensando bem, até faz algum sentido. Essa impressionante habilidade humana em expressar o incompreensível a si próprio. Sempre penso que alguém, em algum lugar, quem sabe, vai se sentir bem de ler algo que aparentemente não lhe diz nada. Mas que significa o mundo para outra pessoa.