Açougue

Fazer palavras do teu corpo
Rasgar a carne crua que te forma
Cheirar o teu suor limpo
E lançar apelos nervoso ao tato
Não preciso de boca para mastigar o teu cabelo
Nem de olhos para enxergar a tua alma
Quero me impregnar de ti
Até não suportares mais
Até ser obrigada a abater
O animal estúpido que sou
Perdoa tantos conotativos
É só a vontade exagerada
De te moldar em minhas mãos
Cumprimentar cada curva como se deve
E desenhar no teu rosto um sorriso
Feito em diálogos vigorosos com a tua pele.

Intimidade

Fazia uma noite calma e fria lá fora. Havia acabado de chegar do trabalho, porém não se sentia cansada ou indisposta. Naquele momento, apenas a solidão habitava o seu apartamento, silencioso e escuro, recebendo-a de braços abertos. E no vazio daquela noite fria, ela preferiu não ligar as luzes, mas sim acender algumas velas perfumadas, que sempre deixava na gaveta da mesinha. Logo tudo ficou povoado de pequenas chamas intermitentes, ondulantes, confundindo o olfato pela mistura de aromas: laranja, canela, rosas. Seu lar agora era uma penumbra perfumada. Ligou o aquecedor e encheu a banheira para tomar um bom banho. Procurava algo para ouvir, uma voz rouca, uma melodia relaxante, qualquer coisa que prendesse a sua atenção sem parecer pretensiosa ou entediante. Finalmente, encontrou algo perfeito e prontamente se pôs a ouvir. E enquanto se despia, seu corpo balançava naturalmente ao som da música, os sentidos a despertar, o ambiente a envolver. Sentia o desejo crescer por dentro à medida que a roupa caía ao chão. Quando deu por si, seu corpo já repousava sob o tapete macio do quarto. Os dedos umedecidos pela saliva tocavam levemente os seios, já enrijecidos. Suas mãos desciam até o ventre e ela sentia o corpo todo estremecer, sentia o calor se espalhar pelos poros, sentia o sexo a escorrer e a lhe pedir para ser tocado e afagado. Os gemidos e suspiros já se confundiam com a música. A viagem continuava e o que pedia para ser tocado devagar agora era acariciado depressa e com vigor até, por fim, sentir aquela explosão de prazer, o corpo a se contrair, o sangue quente a lhe percorrer por inteira, a mente a se esvaziar, ainda que só por uns segundos.

Camaleões

Que complexos que somos nós, os seres humanos. Que quantidade enorme de personagens encarnamos ao longo de nossas vidas, seja porque precisamos para sobreviver na multiplicidade de interações sociais que fazemos diariamente, ou seja simplesmente porque é divertido imaginar-se na pele de outro. No ambiente familiar, podemos ser de um jeito; no trabalho, de outro completamente diferente (aliás, diria que é até recomendável). Na nossa intimidade, e destaco nossa para me referir não a que compartilhamos, mas aquela que não confessamos nem mesmo às paredes, é que somos verdadeiramente nós. As camadas de estereótipos e disfarces que nos rodeiam são apenas proteção. De resto, podemos nos adaptar a basicamente tudo o que nos cerca. Somos camaleões super desenvolvidos.

Há dias em que quase não nos damos conta do próprio dia: perde-se muito tempo no trânsito, a mesa do trabalho está carregada de papéis, a hora do almoço passa correndo e a volta pra casa é longa e penosa. O dia existe, mas se evaporou no tempo. Passou ao lado da vida.

Primeira vez

Deitada no chão, escuta-o se afastar a passos pesados. Vê apenas as pernas dele, grossas, peludas, afastando-se apressadas. Pernas que já estiveram entre as dela, cheias de virilidade e desejo. Pernas que agora desaparecem porta afora. Ela chora. Confusa. Perplexa. Não entende como permitiu que acontecesse. Mal consegue se mexer. Tudo dói. Até respirar. O choro lhe embaça a visão, então ela fecha os olhos. Nada adianta. Tenta se recordar das imagens de antes. De quando eram felizes. De quando ambos sorriam. As tardes de domingo. Os longos passeios pela orla da praia. Os bancos de praça onde trocavam beijos e juras de amor. Os jantares, aniversários, festas. Tudo parece distante. Tudo parece pertencer a outra pessoa. Encolhe-se um pouco mais e se esconde atrás das mãos, de tão envergonhada. Porque se lembra do rosto dele, ainda nítido, calmo, satisfeito. Quase pode ver os movimento dele em câmera lenta. Depois não vê mais nada. A dor vem ofuscante e quente. O primeiro soco. O primeiro empurrão contra a parede. O primeiro puxão nos cabelos. Depois, já não se lembra mais ou não quer lembrar. Quer esquecer. Mas como se esquece? Ela nem tentou se defender. Limitou-se a cair ao solo. Parecia um trapo, uma folha de papel amassada, um lixo, um corpo vazio, movimentando-se ao sabor dos pontapés. Agora nada lhe doía tanto quanto a vergonha que sentia de si mesma. Doía mais por dentro. Por ver a pessoa que amava, a quem se deu, a quem beijou, a quem – feliz – jurou ficar junta para o resto da vida, fazer aquilo. O que diria aos outros? O que diria a si mesma? Aquela fora a sua primeira vez.