Guerra

Bebo com a displicência de sempre e procuro em vão a espuma dos velhos dias de luta. Encontro apenas o exílio habitual, o mais do mesmo, esse clichê cansado de mim. Só consigo dormir nos braços desse incômodo estúpido, dessa dor que nem sei se é doída, mas que me faz mal e também faz parte de mim. Essa velha inimiga, companheira das horas más e indefinidas, que me aparece independentemente das pessoas ao redor (ou talvez por causa delas, não sei ao certo). Esse amargo que vem e arrasa, esteja só ou no meio da multidão. Procuro uma vitória que não encontro. Que está longe. Demasiado longe. Demasiado lá. Demasiados outros. Então procuro às cegas, como quem não sabe ler um mapa, como quem dispara sua arma para qualquer lado, como quem foge sem saber bem pra onde ir. Procuro a paz no quarto mais escuro da noite, debaixo da cama, atrás da porta, em alguma gaveta esquecida. Mas ela não está lá ou não aparece. E a procura vai se tornando desastrosa com o passar das horas e das pessoas. A guerra vai perdendo o sentido. A minha cabeça parte em infinitas direções. Resta-me apenas a fotografia de um momento que me foi tarde. Volto sem nunca ter me sentido como alguém que fez parte de algum lugar. Em mau estado, como era de se esperar. Sonhei com o fim do conflito, mas esqueci do sonho ainda antes de adormecer. Quis ser um vitorioso comigo mesmo (ou comigo outro). Quis ser um general condecorado e só encontrei a desolação árida do que alguns chamam de alma. Estive perto de ir, mas não fui, sabe? Se vou bem? Vou indo. De palavras em palavras até chegar ao final disto que já nem sei o que significa mais. Todo fodido. Todo dividido. Sartre, por inocência ou teimosia, acha que o inferno são os outros. Errado. O inferno somos nós. Mas e os outros? Puta que os pariu.

Ministério dos Destinos

Vez em quando, finjo receber cartas de um tal “Ministério dos Destinos”. “– Recém criado pelo Governo”, respondo e justifico a quem me indagar sobre o assunto. Encarregado da nobre e árdua tarefa de administrar as mais deprimentes vidas e guiá-las a um futuro melhor. É claro que as pessoas precisam dele! Imagine só quantas delas precisam de ajuda! Tantos seres humanos por aí, sem perspectiva ou propósito definido, desacreditando cada vez mais em sonhos e se entregando aos braços pesados da conformidade…

Como todo Ministério, porém, está sempre abarrotado de trabalho. Também comete erros em sua missão, dá informações trocadas, ignora pedidos, deixa de resolver problemas. É burocrático, é impessoal, é cruel. Tanta coisa a se fazer e tanta importância não devem ser fáceis de lidar, imagino. Por isso, nem sempre dá conta de ajudar todas as pessoas. Às vezes, mais atrapalha do que qualquer coisa.

Bem, invento tudo isso para dizer que há dias em que me sinto empurrado por alguma força misteriosa, com braços de Darth Vader e rosto de Freddy Krueger. E finjo também admiração pelo fato de a ciência ainda não ter estudado o fato de existir um setor do Governo interessado em dar um empurrãozinho às pessoas: seja para enfiá-las de vez no buraco ou para ajudá-las a sair dele.

Todos os dias, o bendito (maldito?) Ministério deixa cartas em minha casa: “ligue pra sua mãe“, “isso não vai dar certo” e “levanta essa cabeça e segue em frente” são as mais comuns, mas também recebo muitas do tipo “esse não é o seu lugar” e “calma, tudo vai dar certo“. Eventualmente, recebo outras de conteúdo impublicável. Outras, rasgo impiedosamente ao terminar de ler.

Tantas cartas… tantos sinais a me enlouquecer a cabeça… Precisava de tanta lenga-lenga, Ministério dos Destinos?

Alegorias à parte, eu até poderia acreditar em tudo isso se acreditasse em destino e afins. Há momentos em que nem no Governo eu acredito. Muito menos em empurrões invisíveis de Órgãos Públicos inexistentes.

A verdade é que já tem algum tempo que sinto a necessidade de silenciar os meus pensamentos. Tenho aprendido a ter paciência e a não me resignar mais com tanta facilidade. Antes me irritava com quase tudo, desde uma simples fechada no trânsito até às grandes questões da humanidade, como a miséria no mundo e o egoísmo oportunista de quem se proclama dono da verdade. Hoje em dia, não mais.

Mas bem lá no fundo, confesso que o que eu mais queria agora era me perder um pouco. No espaço e no tempo. Revisitar o passado e ter vislumbres do futuro. Pena que o Ministério dos Destinos provavelmente deixaria mais uma de suas cartas, dizendo, em letras garrafais, mais ou menos assim: “NÃO É BEM POR AÍ, GAROTO“.