Preciso de umas 4 cervejas para virar a melhor versão de mim.

Anúncios

Clareira

Primeiro, o relato das banalidades da vida cotidiana, como se ambos estivessem a tatear e escolher as palavras com certa cautela. O cuidado de andar por caminhos que se sabem conhecidos, porém cheios de pedras e outros obstáculos na travessia. Depois, pouco e pouco, o estabelecimento da confiança. Avançar rumo à floresta dos sentimentos, um labirinto por demais denso e inebriante, até chegarem àquela clareira escondida, onde poucos raios de sol entram, criando a atmosfera perfeita para o encontro. É lá que os nossos corações se tocam e se dizem, muitas vezes de maneiras que nem sabemos explicar, tamanha a metafísica que envolve essa união. Uma união que não apenas teima em resistir, mas que se fortalece a cada dia porque já se tornou independente das nossas vontades, tendo alcançado o domínio do tempo e agora repousa para além de nós mesmos. E se antes havia agitação, hoje há serenidade, porque já inscrito o amor dentro do rol de coisas que não podemos mudar.

Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina

Empréstimos

É engraçado como às vezes precisamos nos valer da palavras dos outros para dizer exatamente aquilo que sentimos. Por não conseguir encontrar as palavras certas, nós nos juntamos às dos outros, poetas, músicos, escritores, enfim, gente com a sensibilidade mais aguçada que a nossa. Até acharmos, pelas mãos dos outros, palavras capazes de exprimir da melhor maneira aquilo que queremos dizer, mas que a crueza ou a banalidade do nosso vocabulário não nos permite transmitir.

Alguma distração

Todos os dias, há este momento em que nada se passa. A televisão está desligada. Não há música, não há fome, não há sede. Não se ouvem portas batendo, passos na escada, talheres na cozinha ou cachorros latindo na vizinhança. O silêncio cobre tudo e é possível, sem muito esforço, ouvir as batidas do próprio coração. É quando me dou conta desta paz intranquila que me cerca e me inquieta profundamente, porque tenho histórias em mim e não há nada que me impeça de pensar nelas. E depois quero escrever, e fazer coisas artísticas, e ser um poço de sabedoria, porque já sou grandinho, mas ainda insisto em brincar de ser feliz, de ser completo, de sempre querer ser mais do que talvez possa ser. Por isso, crio uma coisa qualquer dentro de mim que possa achar bela e me faça encontrar alguma redenção. Ou pelo menos, alguma distração.