Os homens dos olhos de fogo

Adormeci sentado na velha cadeira de balanço que foi do meu pai, tal como ele costumava fazer depois do almoço, enquanto fazia a digestão. Lembro-me de fazer bastante calor e a brisa morna do meio-dia tornava tudo mais lento e estático. Viajei em meu sonho por entre estradas sem fim, flutuando acima delas como se tivesse asas, passando por outros viajantes solitários, carros dirigidos por simpáticos cachorros e cavalos selvagens que atravessavam constantemente a pista, montados por borboletas gigantes com cara de poucos amigos. Avistei um garoto andando sozinho na estrada, mochila nas costas como se fosse acampar, usando uma camiseta com os dizeres “God bless America” e um sorriso com alguns dentes a faltar. Ao me ver, voando por sobre sua cabeça, acenou com a mão, tirou o boné e depois enxugou o suor da testa. Segui em meu passeio aéreo até um pequeno bar de beira de estrada. Aterrissei meio desajeitado e quando fui pedir algo para beber, vi que a clientela, toda formada por homens com cabeça de coelho, tinha seus olhos fixos em mim, olhos que se transformavam em bolas de fogo. Eles então desaparecem, deixando-me a falar comigo mesmo no velho boteco. Servi-me um drink de qualquer coisa que havia por lá, mas deixei uns trocados em cima do balcão para pagar o garçom, acaso ele voltasse. Havia um espelho quebrado próximo de onde, eu supunha, fosse o banheiro. Dei uma boa olhada em mim. Em meu sonho, eu tinha os olhos azuis. Sempre quis ter os olhos azuis, olhos de cor do mar ou de reflexo do céu. Uma velha jukebox começou a tocar “In This World” do Moby, e à medida que o refrão avançava, mais e mais solitário eu me sentia. “Lord, don’t leave me… all by myself…“. Preferi voltar ao céu e resolvi voar em uma direção qualquer, tão rápido quanto fosse possível. Os lugares mudavam de aspecto constantemente. Plantações coloridas, construções exóticas, pessoas idem. E então os homens de cabeça de coelho e olhos de fogo apareceram na minha frente, pois também voavam e pareciam se multiplicar no azul do céu. Havia algo de hostil em suas atitudes, mas antes que eu pudesse me dar conta, eles cortaram minhas asas, ou o que quer que me fazia voar, e então caí, caí como uma grande fruta desajeitada despenca de uma árvore. Assustado, de início. Mas depois de alguns segundos de olhos fechados, deixei que o vento passasse veloz por todo o meu corpo e aceitei a minha queda. Os homens de olhos de fogo ficaram no céu a rir de mim e a fazerem gestos obscenos. Olhei para baixo e vi que me aproximava do fim. Foi quando minha filha me acordou do sonho na velha cadeira de balanço que fora do meu pai. Estava na hora de tomar o meu remédio.

Ecos

Esta pele que se rasga. Este quarto vazio. Abro uma janela e deixo a luz entrar, na vã esperança de dissipar essa metáfora de mim, de preencher algum espaço, qualquer que seja. Não há mais nada aqui. Só papéis rabiscados e velhas fotografias no chão. Restos, pequenas diferenças de existência entre a repetição e o mesmo. Volto a fechar a janela. Pro inferno com toda essa luminosidade! Fico bem melhor aqui fechado e bem sei que, talvez, todo este peso me seja demasiado merecido. Quase posso sentir o vento lá fora, a balançar as árvores, por trás das paredes. Vejo toda a transitoriedade possível ao retirar a claridade do ambiente. Não seria assim também a vida? Se nos retiram a luz, aprendemos a enxergar de outra forma. Tento apagar as marcas, as cicatrizes quentes no espaço invisível que existe entre os meus lábios e o meu peito. Um monte de pele cansada e quase sem palavras. Podes me ouvir? Até minha voz parece ausente sem luz. Esqueço de mim mesmo. Nem sei como ainda escrevo, em golpes incertos nas letras deste teclado até jorrar sangue. Sinto-me cada vez mais doente e perdido. Ainda ecoa dentro de mim a voz quase extinta de quem já fui. Não tenho mais medo, mas também não tenho esperança. Cada erro vira a sombra do que nos resta. Meu coração é impuro e sem pétalas, submerso na penumbra do poço de um jardim torturado pela auto piedade. É esta tristeza coagulada em forma de enfermidade. Não quero pensar. Meus sonhos são confusos e vergonhosos. Quero a suavidade do esquecimento e da sabedoria. Até lá, só me resta caminhar, ainda que torto e fodido. Pouco tenho pra dizer, é verdade. Não procuro redenção ou compreensão. Apenas apareço, vez em quando. Desespero também. Choro. E recomponho-me. Então, de repente, sou esta fotografia patética. Não sou mais um estado de espírito. Mas ainda me isolo e me perco diariamente. Durante esses momentos, tento escrever e entender esta agonia. Ou pelo menos canalizar esta sensação indecifrável dentro de mim. Queria poder escrever nos meus músculos, nos meus ossos, nas minhas mãos e mostrar o quanto me tornei mais sincero comigo e com as coisas que sinto. Mas hoje acordei com uma lembrança triste e já não sei mais de porcaria nenhuma.

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Pai, me ensina a olhar!”

Eduardo Galeano in “O Livro dos Abraços”.

Difuso

Quero ser difuso. Quero me expandir, multiplicar, espalhar por aí. Deixar pedacinhos de mim por onde passar. Quero sensações e o inesperado. Quero a vida como um prato cheio de cores e gostos. Não quero me limitar a um determinado leque de escolhas: bom ou mal, claro ou escuro, alegre ou triste, pequeno ou grande. Quero a terceira via, o caminho nunca tentado, a hipótese improvável, a falha do sistema. Não sou monotemático. Não me ponha um rótulo, pois não quero ser mais um na prateleira da vida. Quero brincar com os conceitos e embaralhar a cabeça dos outros. Quero tocar milhares de instrumentos musicais. Quero experimentar roupas, comidas e sonhos diferentes. Quero me dar ao luxo de não saber, de não me importar, de não ter opinião nem resposta pra tudo. Incomoda a certeza, às vezes. Quero a sorte ao meu favor, soprando forte como o vento na vela de um barco perdido no mar. Quero me perder. Tantas vezes quis. Como é difícil se perder quando se tem uma bússola dentro da gente, a nos trazer de volta ao conforto da consciência. Quero deixar algo de bom pra ficar na lembrança dos outros. Não sei se sou bom em algo, mas quero me descobrir. Por isso, quero ser difuso.

Hoje me bateu de novo essa vontade de ser pai. Não como um horizonte distante, mas como uma realidade mais palpável. Esse desejo crescente de ter nos braços uma criança – menino ou menina, pouco importa – que me observe com o orgulho refletido dos meus olhos nos seus, a me chamar de “papai” e a ansiar por descobrir o mundo.

Então escreva

Escreva. Derrame palavras no papel como se fossem elas o sangue que corre em suas veias, a escorrer por alguma ferida aberta. Escreva sem esperar aprovação, críticas ou nada em troca. Faça-o por você mesmo e mais ninguém. Lentamente ou aos atropelos, a velocidade realmente não importa, apenas faça como melhor lhe convier. Escreva por necessidade, porque precisa se abrir pra não explodir com as coisas de dentro. Escreva, pura e simplesmente. Ponto. Não se requer muita experiência. É mais jeito do que qualquer coisa. Apenas pare, ouça, sinta, permita, pense. Mas não pense demais, pra não estragar a simbologia do ato. Quando se pensa demais, corre-se o risco de virar leitor. Seja leitor também, claro. A leitura nos engrandece de tantas maneiras que é até difícil explicar. Porém deixe para depois o ato de ler os seus próprios escritos, pois para que o leitor vire um crítico, é apenas um pulo. Não seja um crítico. Mas também nunca perca a sua autocrítica. É muito fácil se perder entre o que se é e o que se deseja ser. Então preocupe-se apenas em escrever. De novo. E de novo. E mais uma vez. Escreva até acabar a tinta da caneta ou da impressora. Escreva até não saber mais de nada, até achar que ficou ruim, até ter vontade de jogar tudo para o alto… Até começar a doer. É muito parecido – com as devidas mudanças e com o perdão pela cretinice do exemplo – com o ato de vomitar: não há dignidade alguma, mas sempre melhora tudo depois. Escreva como se houvesse uma arma apontada para a sua cabeça, a lhe obrigar a escrever. “Escreva ou morra”. Então escreva.

“Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna ridículos. A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria. A felicidade são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido. E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm a forma de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança. Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, em que se possam viver de novo, para de novo chegar ao fim e de novo a esperança e de novo o fim. Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos.(…)”

José Luís Peixoto in “Uma casa na escuridão”.

A espera

Eu te esperei pela vida, eternamente aguardando um encontro que existia apenas em meus primeiros sonhos, até que finalmente te encontrei e achei que a espera havia acabado.

Eu te esperei pelo tempo necessário. E ao perceber que a espera ainda estava lá, busquei distrações, arte, música, escrita, tudo para não ter que lidar com a espera, tudo para conseguir exprimir de outras formas um desejo que não cabia em mim. Nunca coube.

Eu te esperei em cada noite fria, nas tardes tediosas e nas manhãs também. O travesseiro e os lençóis como testemunhas do que sentia e sinto, a me corroer as entranhas por dentro, como um veneno lento, a destruir completamente quem eu já fui.

Eu te esperei por meus pensamentos, todos direcionados pra você, imaginando nós dois ao olhar para os cantos da casa e a vislumbrar como seria bom não esperar mais.

Eu te esperei com palavras prontas, gestos ensaiados, olhares verdadeiros e vontades absurdas, culpa da minha ânsia em querer demais algo que nunca vinha. E eu a esperar.

Eu te esperei de corpo e alma, talvez mais corpo até, mas forte o bastante pra desejar nem ter mais alma, mera conveniência do que sentimos por dentro e não sabemos dar nome.

Eu te esperei só e somente, até quase me acostumar a ser só, até quase começar a achar que a solidão poderia ser minha amiga, até aprender a gostar de ficar só.

Eu te esperei e fui açoitado pela espera de tantos dias, tantas semanas, tantos meses, e me assustei quando vi que já haviam se passado vários anos. Eu ainda a te esperar. Você sem saber de mim.

Eu te esperei e houve momentos em que quis desistir de esperar, que achei que a paciência não era virtude de porra nenhuma, que a simplicidade das minhas coisas não deveria ser tão complicada aos seus olhos. Como posso querer tanto algo de alguém para me submeter a essa espera?

Eu te esperei até quando achei que nem esperava mais, que a espera já havia passado por mim e me superado, que outras pessoas estavam onde deveríamos estar, que nem sabia mais o que diabos esperava tanto.

Eu te esperei.

Ainda te espero.