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Chega um momento na vida em que convém se perceber a virtude do silêncio. Saber a hora certa de calar, de engolir o excesso das palavras, de ouvir mais do que os ouvidos podem captar e, principalmente, mais do que a boca pode falar. Não se trata necessariamente de omitir o sentimento ou desvalorizar o que se passa aqui dentro. Não me aconteceu de muitas vezes errar por ter permanecido mudo, mas por ter externado coisas que ainda não estavam maturadas ou que não correspondiam ao que realmente gostaria de dizer. Não me aconteceu de mudar quem eu sou, mas já me aconteceu vezes suficientes para perceber que alguns interesses mudam, outros vão surgindo naturalmente e outros, ainda, talvez nunca tenham estado lá. Em certa altura, ficamos bem é no presente e não nas memórias.

A pele exposta

Tenho a pele ainda exposta onde tu deixastes o último beijo, com a tinta permanente da tua saliva, a me ferver os sentidos sem descanso. Não há cura para este mal: teus lábios me amaldiçoaram. Sei do incômodo que é saber-se fraco diante dos teus olhos. Sei das doses homeopáticas de tristeza, escondidas no canto de cada sorriso lançado ao ar. E sei também do peso embutido nas palavras que teimavam em (não) sair. E continuo, apenas porque sim. Porque há coisas porque sim. Só porque sim. Há lados nas ruas da minha mente que atravesso diariamente, lados que julguei não terem muros, mas eles estão lá; existem. Assim como também tu existes, transpareces em todas as coisas que vejo, como se tudo fosse um fantasma e tu a luz através. Há manchas invisíveis que não posso apagar. Há manchas que nunca me saem das mãos, como se a única saída fosse a amputação. Há, porque sim; há, porque sei. Porque dentro desse peito, agora também exposto e ridículo, independente de escritura ou denominação, há essa vontade de algo que sei meu, que sei teu, que sei nosso, preso, suspenso, perdido, na minha respiração.

Beijos

Poucas coisas conseguem ser tão íntimas quanto um beijo. É preciso confiar muito em alguém para beijar ou se deixar ser beijado, porque o simples gesto de fechar os olhos significa a ausência de defesa. É baixar a guarda. É uma outra forma de o corpo dizer “daqui pra frente é por sua conta e risco”. E quanto melhor o beijo, tanto melhores os riscos.

Um beijo revela muito sobre você, ao mesmo tempo em que dá pra aprender muito sobre a outra pessoa. Não é preciso ser nenhum cientista para notar que segredos podem ser revelados. Desejos ocultos podem vir à tona. Mãos se agitam, pelos se eriçam, narizes se cumprimentam. Todo o corpo parece entrar em sintonia com o beijo, mero coadjuvante desse grande protagonista.

Existem beijos e beijos. Aqueles delicados, em que os lábios deslizam lentamente, como se tocassem algo muito precioso… E aqueles beijos violentos, vigorosos, sedentos, como se não houvesse amanhã e as bocas tivessem vida própria. Existem aqueles que mordiscam de leve e os que machucam os lábios. Tem uns que parecem acariciar o coração. Outros que parecem apertá-lo descaradamente. Há os precisos, certeiros. Aqueles desconfiados, dados no cantinho. E os atrapalhados, que não sabem bem o que fazer na hora: se sentem ou se são sentidos. Muitos são capazes de despir a alma. Outros, apenas as roupas. Tem ainda aqueles que roubam o fôlego e aqueles que o devolvem em doses homeopáticas.

Há pessoas que beijam de olhos abertos e isso é uma pena. Nunca devem ter parado para perceber a dispensabilidade dos olhos nisso tudo.

Área VIP

Fecho os olhos do quarto. Tranco as portas de mim. Sei que ninguém pode entrar enquanto eu não permitir. Porque o meu espaço interno é só meu. Há conforto, segurança e cabe muita bagagem. Ser egoísta sem prejudicar ninguém (seria bom se todo egoísmo fosse assim inofensivo). Agora sim, sou livre. Sou eu mesmo. Eu em estado puro. Por isso canto, grito, danço e tiro a roupa. Limito-me a ser. Nos exatos limites da minha privacidade.