Não sou escritor

Às vezes penso que isto não é para mim. Não sou escritor, apenas escrevo. Pouco e irrelevantemente, é bem verdade. Falta a coragem de me revelar, de me expor aos outros, sem esperar em troca qualquer aceitação, sem ter medo de causar mágoas ou  alegrias. Não sou escritor, apenas prezo pela observação de tudo e tenho esse desejo enorme de contar histórias com a minha visão das coisas. Vejo movimento, luz, cores, poesia, nas coisas mais simples. O sol é mais do que uma lâmpada presa no vazio do céu. Uma porta é o início de uma aventura. Bem se vê, não quis matemáticas na minha vida. Queria ser íntimo das letras. Mas isto não é para mim. Eu sou escrevente. Bom e mau.

Emoções

Minha mãe tinha esse costume – provavelmente uma herança de sua juventude ou dos tempos de casada – de colocar algum disco para tocar na vitrola ou alguma de suas muitas fitas cassetes, gravadas e guardadas com todo o cuidado em velhas caixas de sapato.

Eu me lembro bem que nas manhãs de sábado aquilo era quase um ritual, a música flutuando pela casa desde cedo até quase à tardinha, parando apenas na hora do almoço, a fim de que, como boa católica, fosse respeitado o silêncio das refeições. E eu me lembro também do refinadíssimo gosto musical dela, transitando entre grandes nomes da música brasileira até antigos boleros em espanhol.

Por mais eclético que hoje me pareça, gosto de pensar que fui musicalmente influenciado por ela, de alguma forma, ainda que hoje em dia escute muito pouco ou quase nada desses estilos musicais. Mas aquela sem dúvida foi a trilha sonora da minha infância.

O fato é que, dentre as minhas lembranças mais queridas daquela época inocente, tem uma que nunca me esqueci e que às vezes revisito mentalmente, como se passasse ainda nítida diante dos meus olhos; meu cérebro a controlar as imagens com o poder de um avançado equipamento de vídeo; meu coração ainda assustado e confuso.

Eu devia ter os meus 9 ou 10 anos, não me recordo ao certo. Era uma ensolarada manhã de sábado e eu estava na frente da televisão, assistindo a alguns desenhos como qualquer criança daquela idade estaria. A casa cheia de música parecia reverberar como um sistema vivo, embora o seu núcleo fosse o quarto da minha mãe. Tocava “Emoções”, do Roberto Carlos (se não me falha a memória), em um volume audível e suficiente para ser ouvido pela pequena casa de madeira, mas respeitoso o bastante para não incomodar os vizinhos.

Em determinado momento, mais precisamente quando Roberto canta “…se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”, minha mãe intencionalmente girou por completo o botão que controlava o volume do aparelho de som, fazendo com que o refrão da música e seus terríveis metais (pan-ran-pan-ran-ran-ran…) ecoassem ensurdecedores por toda a vizinhança.

Levantei de susto do sofá e corri até o quarto dela achando que tivesse acontecido alguma coisa. Qual não foi a minha surpresa ao encontrá-la rindo histérica em cima da cama, abraçada com a capa do disco, numa expressão de alegria que eu até então nunca tinha visto e que, àquela altura da vida, nem poderia entender.

Minha estúpida reação diante daquela cena foi a de censura. “A senhora ficou maluca?”, eu me lembro bem de dizer, enquanto baixava o volume a uma altura em que ela pudesse ouvir a minha bronca. Ela ainda ria descontrolada em cima da cama, o que me fez desligar a música de vez e, por fim, dizer “Pronto! Minha mãe endoidou!”, com as mãozinhas em volta da cintura. Eu tinha uma expressão assustada e confusa. Nunca a tinha visto daquele jeito.

Ela me explicou, segundos depois, que se sentia tão feliz e gostava tanto daquela música que simplesmente quis aumentar o volume ao máximo, para que todo mundo também ouvisse como ela se sentia. Concordei com a explicação, ainda que sem entender muito bem o seu contexto, desconfiado e surpreso pela primeira vez em que a via sentir tanto entusiasmo por algo.

Hoje eu me sinto mal por tê-la censurado justo naquele momento. Naquele preciso momento de uma alegria tão extrema que me assustou. A alegria verdadeira de alguém jamais deve receber boicote. Quisera eu ter deixado ela lá, ouvindo todas as músicas que quisesse ouvir e a fizessem se sentir bem, desde que ela congelasse aquele sorriso no rosto e nunca mais o tirasse. Juro que não me importaria mais. Talvez até ficasse lá no quarto com ela, fazendo companhia ou pulando na cama também.

Volta e meia revisito essa memória e tento rever a expressão que pude contemplar na minha mãe naquele dia.