“Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.”

Daniel Faria in “Explicação das Árvores e de Outros Animais”.

Bocejos na linha do tempo

Há dias que não tem correspondência alguma, pois nada parece importar. Dias interrompidos, parados, mudos, incolores. Um bocejo interminável na linha do tempo. Os corações a bater sem razão, sem propósito, apenas porque o sangue corre nas veias sem ter mais pra onde ir, apenas porque sim. E fica aquela sensação de desmerecimento, o desejo pelo retorno no tempo, a certeza de que poderíamos ser melhores, voltar atrás, começar de novo, fazer tudo valer à pena, tudo importar, tudo diferente até que o dia pudesse significar algo. É que ninguém merece dias sem uma imagem clara, sem perspectivas, sem passeios no parque, sem trilha sonora, sem beijos apaixonados. Sim, eu sei, estou a exagerar. Nem todos os dias podem ser importantes, embora devessem. Há dias que não contam exatamente porque não aconteceram.

Apreciando o momento

O que você faz
Quando acha que chegou ao fim?
E pra onde vamos nós
Quando ficamos a sós
Ouvindo o som da própria voz?

Talvez você não tenha ideia
Do que significa pra mim
Porque está tão acostumada
Quase sempre ocupada
Demais pra se divertir

O que realmente importa
É ser feliz, não é?
Ser feliz como puder
Não se engana, não
A solidão não é amiga de ninguém
A não ser dela mesma, baby

Não se trata do tempo
Eu não quero ter horas demais
Pra esquecer como se faz
Pra viver sem saber
Apreciar o momento.

Déjà vu

Nada mais espero do acaso. Andar pelas ruas sem reconhecer os rostos, num caminhar apressado demais ou desinteressado demais. Passar por lugares novos e sempre pensar já tê-los visto antes. Um déjà vu de toda a vida. Parece que nunca consigo me livrar desse sentido circular: são sempre voltas em repetição, lutando para não ser levado de volta ao começo, insistindo para que tudo não passe de variações do mesmo tema. Sigo por dentro da infinitude dos dias, tateando cego no vazio da minha torpeza. “- Que  cena triste, ficar a não esperar mais nada…”, tu me dirias, certamente, entre um gole e outro dessa porcaria que sempre bebes. E embora saiba verdadeiro o pensamento, aqui estou eu mais uma vez a me negar, a persistir em coisas que não sei ao certo o porquê de fazê-las. Tudo às vezes parece perder a importância, tudo parece banal e conveniente. E me vem essa ânsia, essa agonia sem nome e endereço, a me engolir por dentro. “- Que queres, então?”. Ah, meu velho amigo oculto, essa pergunta é maior que eu, que tu, que nós todos! Não penses, nem por um minuto, que eu não gostaria de achar respostas. “- Então a vida é só isso aí…?”. Talvez não. Mas, no momento, estou me permitindo desdenhar.