Catchup

Corre-me desperto pelas veias um líquido cheio de sonhos, a desfilar livre por dentro disto que chamam de corpo e, no entanto, sempre preferi nomear “casa” ou “morada”, por achar muito mais apropriado. Esta água viscosa e rubro-negra me sobe e desce acelerada nestas avenidas de carne, como se uma cidade grande e barulhenta existisse dentro de mim. O vermelho tinge o trânsito resplandecido lá em baixo, cobre todos os movimentos involuntários e as paredes cinzentas do meu coração, apesar do esforço imenso dessa membrana apática que o cobre com frequência. Há pensamentos que me percorrem o sangue, cegos como ideias acorrentadas dentro de uma caixa num sótão fechado, pensamentos que meu corpo inteiro apenas reverbera, aguardando um fio de resolução de minha parte, uma atitude, um estopim, uma fagulha para a explosão. Mas há também um monstro vivo, uma criatura má e perversa, com dentes e garras afiadas, a rasgar a carne destes pensamentos, a mata-los ainda nascedouros, a destrui-los antes mesmo que eu possa contemplar ao certo como seria a vida destas pequenas coisas imaginadas, como seria visualizar a liberdade dos meus pensamentos mais queridos. Então venho aqui. Sempre venho. E escrevo, escrevo loucamente, escrevo até me doer a cabeça, até me faltar tinta, palavras ou sanidade. Foi a forma que encontrei de continuar a ser eu mesmo. Para continuar a ser assim, desdobrado como a espera de um abraço cheio de saudade. Por entre fendas, por entre sussurros cotidianos que me escapam desta morada torta, desta casa em turbilhões de memória presos no tempo, vivem a irromper suspiros mínimos dos pensamentos que sobreviveram feridos aos ataques do monstro, numa loucura expelida pela força do sangue. Às vezes sinto que vai sair de mim uma lágrima gigante. Outras vezes, sinto que talvez nunca mais vá chorar por nada. E poderia mergulhar despreocupado dentro do tráfego enlouquecedor que corre pelo meu sangue quente, nos espaços dos meus sonhos mais absurdos e irreais, e simplesmente nadar, nadar sem medo do afogamento, sem nojo desse líquido negro que me forma, indiferente à toda a fragilidade do mundo exterior. E finalmente emergir, respirar, ser novo, completo, vivo. Ontem sujei a camisa branca de catchup e me visualizei inteiramente coberto de vermelho, meu corpo era uma represa arrebentada e meu rosto tinha uma expressão de ternura e tranquilidade tão grandes que me fizeram acreditar verdadeiramente na felicidade.

Autorretrato

Amo com certo desleixo. Falo apenas o trivial, em frases curtas, em pequenas notas, escritas nas entrelinhas, de qualquer jeito, enviesadas. Tenho pouca vaidade e acho estúpido perder tempo com isso. Minha voz trêmula balbucia meu próprio nome. “Não sei o que tu esperas de mim”, reverbera meu reflexo rachado, meu inimigo imaginário. Os ouvidos fechados, a mente a percorrer distâncias inimagináveis, longe demais da boca que derrama estas palavras que nem sei mais o que significam. “Mas este sou eu mesmo”. Na verdade, sei que não. É só a minha voz interior, mais uma vez, derramando gotas e mais gotas de verdades, verdades que visto de mentiras para parecer mais humano, verdades que tenho vergonha ou medo de admitir, verdades que tantas vezes engoli à seco neste corpo agora cansado demais para lutar por qualquer causa. Sou imagem de quem não sabe bem o que dizer, de quem não sabe bem como ou o que falar, de quem não sabe bem como existir. Sou eu ali na esquina a andar apressado, como quem foge. E sou eu ali a sorrir desajeitado, a desconversar, a se esconder. E também sou eu aquele que persegue fantasmas. Aquele encolhido no canto, escondido no sofá, na cama, em meio aos lençóis, sufocado pela falta de sono. Mas, sim, este sou verdadeiramente eu. Afinal, ainda sou o mesmo. Eu e meu olhar de doçura enraivecida. Eu e tudo aquilo que carrego dentro de mim. Percebo que não apenas envelheço, como também vão ficando mais antigas e suaves as minhas resignações. Mas em mim ainda se podem ver os mesmos sonhos e desejos por entre as pequenas rugas que já me saltam do rosto. Este sou eu, sim. A vomitar escritos a uma distância muito maior do que posso imaginar, escritos que acredito que ninguém lê de tão ruins que os vejo, mas que tão doídos me são. Escritos tão meus que às vezes me sinto nu. Sentimentos pesados que disfarço em suave pieguice neste autorretrato.

Já está

Caminho. Carrego. Canso. Penso. Peso. O peso de tudo: todos os dias, todas as noites, dentro e fora de mim. Todos os singulares momentos que me permito, apenas servem para não me esquecer de tirar. E tiro um pouco, tiro muito, todos os dias tiro, e vou tirando, e vou guardando, e guardo, guardo até não haver amanhã. Porque, às vezes, não sei se há. Porque ainda tenho medo dos meus próprios medos. E enquanto houver medo em mim, carregarei esse peso nos ombros. Há, então, o hoje. E no hoje eu quero tudo, ao mesmo tempo, tenho que querer, infinitamente tudo, todas as oportunidades, todas as ações, tudo que me faça sentir todas as emoções do mundo e, ainda assim, pequenas o bastante para caber nos bolsos do meu tempo. O meu mundo é, por enquanto, o que posso fazer e nada mais. Nada mais… nada! O que me cansa é não me saber dizer, não me saber contar, não me saber responder. Mas se tivesse a resposta, também não saberia dizer mais do que isto que agora escrevo. Por isso respiro, e quebro, e escrevo, e toco! Que bonito! Que fantástico! Que inspirado que eu estava! Até reler ou rever tudo de novo e achar medíocre, e fraco, e mau, e complicado, e não me dizer absolutamente nada. Queria ser desligado, arrastado pra fora e trancado num quarto escuro e frio, à prova de som, deixado lá por muitos e muitos anos sem sentir absolutamente nada, de forma a poder equilibrar tudo o que tenho e não pensar mais na vida como uma corrida que não quero ou não sei porque participo. A resposta? Sei lá qual é a resposta! Daqui até o chão deve ter uns quinze metros. Mas essa também não é a resposta. A pergunta? Não a tenho. Só tenho soluções porcas, métodos falhos e a maldita sabedoria popular. Nunca devia ter lido a Bíblia. Nunca devia ter ficado sem falar com o meu pai. Nunca devia ter sido tratado tão mal pelas minhas decisões. Nunca devia ter deixado de ter 12 anos. Mas as coisas acontecem! Tudo acontece! O tempo, quem o dita? Nem consigo parar, estou sempre a correr e não paro, não paro nunca, nem quando me doem os pés, nem quando me doem as pernas, não paro porque senão perco o tempo, e tudo tem que caber dentro do tempo. Só que tudo me cabe dentro, menos o tempo. Menos o tempo. Já está. Já me perdi. Não sei mais o que dizer.

Buraco

Chego em casa e me deito junto à noite sem receios ou aspirações. Nos meus olhos guardo a imagem de dias pintados com cores mais vivas. Penso em escrever infinitas palavras que lentamente vou esquecendo, em ideias que surgem sem qualquer razão aparente que não seja a memória de outras vidas estendidas num varal dentro de mim. Então me deito e sinto as pálpebras pesadas do cansaço que me recai. Não tenho palavras ou caminhos para descrever este interior soturno que, vez ou outra, mergulho sem saber se posso ou quero voltar. Devagar, na quietude da noite, escrevo coisas ao acaso, lançando palavras mornas em um buraco tão grande quanto o meu silêncio.