Toxicidade

Há momentos em que de nada adiantam as palavras. Meros símbolos gráficos que não representam metade do que queremos dizer de fato. Apenas desentupidores de ralo quando os encanamentos dentro da gente já estão a se romper. Mais uma garfada de ar, em sabor único, além dos limites aceitáveis. Empurrando tudo meio sem jeito goela abaixo. Peço licença poética para também atirar a minha metralhadora cheia de mágoas. Não quero deixar ninguém de fora. Quero fazer um banho de sangue e depois enterrar tudo no quintal. Tenho todas as certezas do mundo, mas não sei explicá-las. Tenho um oceano de decisões naufragadas dentro de mim. É que nunca fui bom em decidir o futuro das coisas. Mas preciso dizer que me desconstruí, que me anulei por completo, idiota ingênuo que sempre fui. Agora são suspiros que me saem do peito, como uma névoa escura a cobrir o dia ou um veneno lento a correr pelas veias. Perdoa toda a toxicidade que escapa de mim. Não consigo evitar.

Sou um grande equívoco ao anoitecer

À noite sou excesso transbordante. Minhas paredes desabam, as barragens se rompem, as grades já não prendem. Sou um grande equívoco ao anoitecer. Sou muitas pessoas e cada uma delas quer transpor suas próprias fronteiras. Sou um céu parado na normalidade das coisas, na confusão indiferenciada dos meus pensamentos mais secretos. Porque é no doce abraço do escuro que a verdade emerge dentro de mim. É na negritude imóvel da casa que badala o som da meia-noite por dentro de mim. Cresce essa urgência esmagadora de desaprender as palavras e o silêncio beira o insuportável. É quando a noite chega que encaro os meus desabafos interiores e tento revelar e dar nome a todas as tristezas. É na escuridão da noite que o meu rosto vira uma tela em branco, a ser preenchida com a imagem rigorosa e verdadeira de tudo o que eu sinto.

Bem lá fundo de mim tenho a plena consciência de ser apenas humano. De aceitar esta humanidade com tudo o que ela representa. De tê-la desprendendo-se para fora de mim por todos os poros. Exalo de mim esta humanidade como um suor frio, como o medo de um animal feroz ou da morte, a crescer em meu rosto, a escorrer pelas pernas e pelo sexo delas debaixo de mim, debaixo do meu coração, cansado de tanto bombear este sangue já meio coagulado e lento. Tenho a impressão de por dentro de mim não haver nada além desta humanidade absurda. Então penso na tristeza e na solidão disso tudo, como quem pensa numa fotografia. Um recorte no tempo do que significa ser humano. E permaneço aqui sentado, infinitamente, naquele peso eterno, o peso de viver que se afunda em mim numa serenidade que não permite convidados. Com meu corpo esquisito e frágil, embriagado de dores e prazeres tão humanos quanto se pode imaginar.

Gaveta do meu peito

Hoje tudo me vai distante
Como também eu já estive
Mais longe que o amor
Que um dia eu guardei
Porque queria ser mais livre
Tem um lugar aqui
Que já não cabe mais
De tanta coisa de nós
Que eu nunca esqueci
E quando penso em abrir
Cada palavra salta fora
Da gaveta do meu peito
E dança sob a luz do teu sorriso
Toda vez que fecho os olhos
Há um mundo que eu visito
Toda vez que fecho os olhos
Perco um pouco do juízo
Toda vez que fecho os olhos
Ainda penso em te encontrar.

Amenidades

Viviam no conforto dos hábitos sem nunca reclamar. O ritual de todas as manhãs a ser fielmente cumprido. O lento despertar, o banho gelado, o café forte. Ler o jornal ainda com cheiro de tinta nova, mas velho em suas notícias tão parecidas com as do dia anterior. A realidade era apenas distração de uma dor muito maior, a dor que encaravam todas as noites ao tentar dormir, quando suas mentes percorriam distâncias inimagináveis tentando de algum modo se encontrar. E apesar de tanto desencontro, sempre sabiam se reconhecer um no outro. Por isso, jamais seriam estranhos. Mas tudo era diferente agora. Tudo lhes exigia maturidade. Tentavam, então, lidar da melhor forma possível. Desenhavam no grosso papel da rotina os traços de uma ausência que nunca lhes saía do peito. Perambulavam pela vida como incertezas ambulantes. O desejo mais íntimo, a união mais concreta, a vida já lhes havia negado uma vez. Hoje em dia, tudo o que mais queriam era preencher suas vidas com a segurança da simplicidade, sem maiores dramas ou complicações. Cada qual vivendo sua vida como se feita unicamente de amenidades. Talvez com a esperança de que um dia, quem sabe, a crueza daquela existência fajuta pudesse dar azo, enfim, ao grande momento de suas vidas.

Cada dia é um assombro. Uma luta vazia, uma guerra perdida. Passos para dar. Gente para fazer sorrir. Dores a ignorar. Vida a se seguir. Mas como posso levantar se a cada minuto desmorono? Como posso ser forte se o teu olhar triste me arranca dos trilhos?