Paternidade (1)

Bem, descobri recentemente que vou ser pai e tudo me tem sido por demais estranho, confuso e novo. Ainda estou aprendendo a lidar com a ansiedade, as expectivas, a responsabilidade e os enjoos matinais da minha esposa. Mas me sinto bem e me sinto feliz, de alguma forma. Estranho como um simples evento que muda completamente sua vida te faz sentir desse jeito. Abobalhado e perdido. Feliz e preocupado. Ansioso e esperançoso.

Ser pai sempre me pareceu uma tarefa meio ingrata. Ter o peso desta responsabilidade nas costas, sabe? Receber, criar, educar, acreditar, torcer, consolar, apoiar. Amar uma criaturinha que nem imagina as mazelas do nosso mundo, mas que, ainda assim, vem e traz um pouco mais de esperança e cor aos nossos dias. Mas a verdade é que sou suspeito. Eu não tenho bem um referencial do que é ser pai. Meu pai foi minha mãe e o mais próximo que eu tenho de uma figura paterna é um tio que não tem filhos. Eu não sei dizer até que ponto isso influenciou no meu caráter, mas definitivamente influenciou no fato de ter adiado tanto a decisão de ter ou não filhos.

Posso estar enganado, mas acredito que esse processo de colocar uma nova vida neste mundo e de tornar-se responsável por um humaninho babão e chorão é mais fácil para as mulheres. Veja bem, não quis dizer que a tarefa de ser mãe é mais fácil para elas – até porque não é, muito pelo contrário! O que quis dizer é que nelas este processo, este “tornar-se mãe”, é algo mais concreto, palpável. Há uma série de mudanças que acontecem no corpo e na mente delas, isso sem falar dos 9 meses carregando o bebê, dar à luz, amamentar, etc.

Virar pai não envolve nada disso, por mais que se acompanhe este processo de perto. Ser pai me parece mais uma escolha, uma decisão que você toma. Existem muitos homens que tem filhos, mas não são pais. Assim como existem muitos pais por aí que, apesar de não serem de fato, tem amor de sobra para dar. Daí porque penso que é uma tarefa ingrata. Nós nunca estamos preparados.

Eu fiz esta escolha. E embora não tenha qualquer bagagem ou ideia certa do que significa ser pai, quero ser o melhor pai do mundo. E vou dar tudo de mim pra isso.

Enfim, acredito que este é um assunto que ainda vou abordar muito por aqui e desde já peço desculpas por eventuais inconvenientes.

Pintor

Quero escrever. Sei que quero. Mas não me conformo. As palavras estão lá no fundo, em algum lugar, presas nesse alçapão negro que só abre quando quer. É tão difícil escolher as palavras. Nunca consigo me abrir como gostaria. Escrever por escrever, apenas. Tentativas frustradas. A música não ajuda. O silêncio também atrapalha. Às vezes me sinto um pintor que esqueceu como se pega no pincel. E que com o tempo vai perdendo a destreza, a facilidade dos movimentos, a habilidade de transformar sentimentos em algo mais. Estou bem, acho. Mas volta e meia me sinto esse pintor.

4:10

Deixaste-me preso naquele momento. Naquele instante de tempo em que os nossos beijos não se esgotavam em si e percorriam livremente os nossos corpos, num arrepio corrosivo a irradiar por toda parte. Um dia ainda vivo aqui dentro, cor de sangue, marcado, doce, azedo. Agarrado na ponta da língua e no fundo da garganta. Não havia erro maior. Não existia adversidade forte o bastante. Ninguém poderia nos parar. O mundo parecia pequeno demais para conter tanto desejo e aquelas quatro paredes deixaram de existir ou importar de fato. Falava mais alto a vontade desesperada de despir o outro e descobrir todas as fraquezas, todos os mistérios, tudo o que não poderia ser e, no entanto, estava ali bem a nossa frente, ao alcance, tangível. Ainda posso me ver refletido em teus olhos, porque estive dentro deles e talvez tenha deixado um pouco de mim. Ainda escuto a tua voz e o teu riso, naquele delírio em que sequer havia palavras, porque as palavras também eram inúteis e a loucura havia nos transformado em algo mais. Já não éramos nós. Fomos outra coisa qualquer naquele dia. Um dia que me deixou preso. E que me habita nebuloso dentro do peito como uma dor fantasma.

Bebo porque, em geral, não me suporto. Porque sempre preciso me encontrar e quase nunca consigo fazê-lo sóbrio: meu estado natural é por demais retraído, anulante, desinteressante. Há momentos em que tudo o que preciso é sair um pouco de mim, desse autocontrole inconsciente que me guia como um fantasma pela vida. Bebo para tornar o meu próprio mundo um tantinho mais interessante. Esperando algo acontecer, fazendo com que aconteça algo ou simplesmente para aumentar a intensidade de tudo o que me cerca e me toca e me impulsiona, bem ou mal. Toda sensibilidade escondida. Toda alegria estúpida. Toda tristeza engasgada.

Só para mim

Sentei-me à mesa e decidi que terminaria de escrever todas as cartas de amor que tinha deixado para trás. Metade já meio escritas e nunca terminadas. Todas devidamente pensadas e cheias da breguice natural que contamina as cartas de amor. Mas já não tenho para quem mandá-las. E então ouvi as músicas de sempre, aquelas que me confortam e que escuto quando a solidão vem dar “bom dia”. Há dias em que a solidão esmurra a porta insistentemente e grita como louca até que, por fim, cansado, abro a porta e ela me abraça, um abraço apertado e familiar. E depois li os poemas que sempre leio em voz alta e me senti pulsante por um sentimento que não sabia descrever. Às vezes tenho vontade de sussurrar “eu te amo” ao vento e deixar que ele se encarregue de entregar a mensagem. Nós nunca precisávamos de grande coisa para andar pelas ruas como se tivéssemos acabado de ganhar na loteria, não é? Era na simplicidade das pequenas coisas que nos encontrávamos. Foram elas que nos uniram. Até ao dia em que, sem sequer me dar conta, quis engolir-te com o meu egoísmo, a ti, a nós, aos nossos pequeninos e incríveis momentos, de uma só vez, e claro, tu já sabias e eu também devia saber. Isso não podia dar certo. Eu não podia nos querer só para mim.

Sísifo

“Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.”

Miguel Torga in “Diário XIII”.