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clappedApesar de aniversários me serem intragáveis, tive um dia bem feliz.

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Sempre quis saber até que ponto faço parte do imaginário dos outros. E qual o tamanho da discrepância, já que, provavelmente, não hei de caber na medida exata em que fazem parte do meu.

Inaptidão

writingNão fosse o fato de me considerar tão inapto para a vida, possivelmente não teria lido tanto (isto não significa, de modo algum, que tenho lido muito, apenas que teria lido menos). Muito menos teria passado pela minha cabeça gostar de escrever.

Não ousaria dizer que tenho um grande amor pela leitura e pela escrita. Com a leitura, procuro amizades e interesses que não encontro de carne e osso. Com a escrita, procuro apenas apaziguamento, qualquer coisa que me justifique perante mim mesmo, que me faça sentir no direito de existir quando todo o resto parece falhar. Até mesmo este pequeno blog existe de maneira equivocada, errática, sem qualquer intenção que não a de me servir. Nem se trata de vir aqui expor a minha intimidade. Intimidade não é isto.

A verdade é que leio e escrevo tão somente porque não consigo encontrar alento. Se alguém me perguntasse o que eu gostaria de estar fazendo agora, dificilmente a resposta seria “estar escrevendo”. Muito embora eu encontre um prazer indescritível ao fazê-lo, escrever é mais uma necessidade que qualquer coisa. Quisera eu não precisar disto. Aceitaria de bom grado, alegre e sem vergonha, uma existência toda feita de trivialidades: lavar a louça, fazer para o jantar, verificar a água das plantas, pagar as contas, etc.

É por não estar satisfeito que, sem respeito ou pudor, sirvo-me da escrita.

Você ocupa espaços da minha mente que nunca rearranjo. Porque são momentos que estão presos, parados no tempo, um tempo que só existe aqui dentro de mim e, por isso mesmo, flutua livremente. Porque são lembranças que eu quero que fiquem ali, sempre por perto, sempre acessíveis. Lugares que vez em quando revisito num lampejo sufocado de saliva e saudade.

Tempos modernos

Acordar
(Por quê?)
Desanimado
Sonolento
Lento
Indo
Voltando
Acabar?
Não, nunca
Volta
Faz lá
Termina
O que começar

Buscar
(O quê?)
Sucesso
Leso
Lido
Pessoas
Até quando
Aguentar?
Dormir, nunca
Volta
Vê lá
Até onde
Pode chegar

Conseguir
(Como?)
Difícil, tanto
Acerto
Erro
Ego
Ébrio
Lutando
Pra esquecer?
Volta
Vai lá
Volta que agora
Vai acertar

Valer
(Quem disse?)
À pena
Apenas
Dias
Horas
Segundos
Contando
Não passa?
Não pra mim
Tenho
Léguas de
Insônia
Antes do fim.

Um dia

Vou me sentar e conseguir dizer o que quero sem delongas ou receios. Vou perceber quem sou sem jamais me sentir incomodado. Não precisarei mais escrever, porque todos poderão ler facilmente o que trago escrito em mim. As minhas coisas não serão apenas minhas, pois me ultrapassarão e as partilharei por onde andar. Meus olhos vão brilhar frequentemente. Porque quero chorar, porque quero rir, porque estou contente, triste, cansado, tocado, porque estou assim. Porque sou. Irei trazer pequenos sorrisos em cada palavra, a me enfeitar o olhar. E vou trazer também o mar em meus olhos. As ondas batendo na areia, descontroladas como dias raivosos. Às vezes, vou bater bem forte nelas até elas se partirem. Outras vezes, vou deixar o ritmo delas me acalmar a alma. Vou guardar coisas junto ao peito pra me lembrar sempre. Uma concha, um grão de areia, uma pérola, um beijo, um amor. Não terei medo de surpresas. Vou aprender a dizer não. Pagarei toda a bondade a mim feita com ainda mais bondade. Meu coração não terá feridas pois todo cicatrizado e o levarei sempre à mão. E ele terá a dimensão que tem, de tudo e todos que cabem nele. Sentir-me-ei merecedor de todo o afeto que acho que nunca soube dar. O telefone vai tocar. E a voz do outro lado encherá meu ouvido de alegria. Vou desejar sempre mais do que posso querer porque o meu sonho será rebelde e infinito. Vou gostar de me sentar no banco do passageiro enquanto a felicidade me guiar.

Laços de amizade

Então há os finais de semana. Há as pessoas queridas. E há também o tempo que dedicamos a elas, os abraços, as conversas, os planos para o futuro, os goles na bebida que desce macia e nos torna mais falantes. Cada um a seu modo, cada um acrescentando algo, com as suas particularidades. Matamos saudades uns dos outros, falamos da nossa semana, das outras pessoas que passaram por nós, em algum momento. Das pessoas que nos agradaram, irritaram ou entristeceram. Das pessoas que fazem parte da nossa vida. Pensamos nas férias, nas viagens, as programadas ou não. Dos filhos, existentes ou não. Lembramos da coisas boas e das ruins também, inevitavelmente. Às vezes pensamos nos nossos sonhos, nos amigos que já não estão mais entre nós, mas que ainda são lembrados, sempre. E fazemos um brinde a nós, por ainda estarmos juntos há tanto tempo, por ainda mantermos firmes esses laços de amizade que nos fazem tão bem. Mesmo depois de cada um ter seguido o seu rumo, mesmo que já não nos encontremos mais diariamente como antes. Porque sempre achamos um jeito. E se às vezes tenho a sensação de que muita coisa já se perdeu, outras vezes sinto-me incrivelmente bem. E fico feliz por continuarmos a nos ver.