O tempo tem corrido com uma fluidez absurda. Tudo me parece impossível de controlar e digerir. Juro que não me agrada esta velocidade na vida. Sinto saudades de outros tempos, aqueles onde podia abrandar a pressa e adormecer mais cinco minutos antes de começar um novo dia. Mas não quero parecer chato ou reclamão. Apenas sinto saudade.

Tenho os olhos cansados, a boca seca e os dedos inquietos. Não me pergunte sobre o que falo. Nunca sei o que responder. Trago nos lábios infinitas expressões, mas sei que não faço o menor sentido. Porque no dia em que começar a fazer sentido, é porque todo o resto já perdeu a importância. Quero fazer estas quatro paredes desabarem sobre mim. A doença é ser a minha própria doença; a cura, inútil. Impossível. A verdade das coisas entala e volta e transborda. O coração é este pacato indivíduo que quer virar um criminoso, cometer loucuras, atrocidades. Mas nestes dias repetitivos, tudo resiste à própria gravidade. Tudo permanece. O sangue a brotar do peito e escorrer até aos pés, sem nunca chegar suficientemente ao pensamento. Existir por si só. Mais do que se julga. Menos do que se gostaria. Incompreendido ou compreendido bem demais. Nas duras horas que se seguem, em que estico minhas forças sem vontade. Não quero me ver de fora. Tenho medo de viver-me (existe isso?). Escrevo por não saber gritar. Às vezes me calo por não saber bem o que dizer. Vez em quando, o mundo vira a cara, sabe? Uma, duas, três vezes, mais. É difícil ser paisagem. É difícil ser e, por ser assim, ser algo que nunca soube ser. Não estar acostumado me devora por dentro. Sou uma criança a brincar na escada rolante, teimando em andar para trás. Sou eu, agora. Sou eu que trago a noite comigo e a insônia é só uma desculpa. Sou eu e estou sentado na relva e ficarei até o sol nascer. De resto, tudo bem. Passaria a noite a escrever. Se sobrevivesse à noite em mim.

Travesseiro

Juro que meus braços não terão preocupações e deixarei sempre um sorriso preparado para te receberes. Quero rir contigo. Abraçar-te em gargalhadas obscenas e que façam os vizinhos nos olharem enviesados. Quero ser a primeira coisa que os teus lindos olhos veem quando despertas pela manhã. Quero que tu me pegues e me desenroles como se a minha mão direita fosse a ponta solta de uma bola de lã. Solte-me deste silêncio que tenta me prender, vez ou outra. Quero tagarelar contigo, amenidades ou filosofias mundanas. Que o meu beijo te cause sempre a mesma vertigem e te faça flutuar do chão. Quero te dar vontade de me olhar, de me ler, de se ver em mim, refletida, correndo em minhas veias. Tire-me da frente desta tela branca e rodopie comigo pela sala. Desate os meus nós e me põe a chorar. Limpe o pó embaixo do nosso tapete enquanto espirramos juntos. Não quero ser imune, não sentir, não achar que a dor não me atinge. Um pouco de sangue, suor e lágrimas, por favor, que sempre nos fazem crescer e amadurecer. Nunca te disse. Mas às vezes, quando e enquanto tu dormias, eu colocava um travesseiro ao lado do teu e lá ficava um bom tempo. Tinhas a expressão mais bonita e tranquila em teu rosto. E o teu amor acenava de volta para mim.