Quando o sol molha por dentro

“Podemos reapaixonar-nos
de vez em quando
sem nunca nos termos deixado de amar.
É o simples prazer daqueles momentos,
os longos, longos, segundos
quando o sol molha por dentro e a chuva se veste por fora.

Olho-te agora – tens a ponta do nariz manchada com café…
E o meu sorriso abre-se, solto – adocicado já.
Conto-te o dia de hoje já a espera de te contar o de amanha.

Nao te aceito as promessas.
Até porque te amo. Tanto que
me esqueci de te dizer dessa mancha de café.

Nao te aceito as promessas. Dá-me o simples prazer de estar aqui e esperar um destes momentos.
Quando o sol molha por dentro e a chuva se mistura com o beijo.”

Mines Castanheira in “plasticidades”.

*sigh*

Não gosto de envelhecer. Não me habituo ao fatalismo melancólico que a idade traz. Tudo vira resignação aqui dentro. Tudo tende à amargura. Não quero ser flor a morrer lentamente – e olha que nem estou falando da morte. Eu falo da aceitação das coisas que não posso mudar. Sejam elas em mim ou nos outros. Sou estranho e meloso, eu sei. Mas não sou feito de aço. Estou cansado demais de lidar com os pormenores. Não quero me rodear de distrações para me afastar do que incomoda. Não quero ter palavras demais, demasiadas, a ocuparem a boca ao invés de certos beijos, precisos, necessários. Não quero respirar por aparelhos metafóricos. Não quero vomitar o que me falta por dentro. Não quero só conseguir dormir 5 horas por noite. Não quero mais olhar para o abismo. Não quero este silêncio que preparei e que está pronto.

Caligrafia

Uma página vazia
Branca
Virgem
Olho-a de cima a baixo
Suas linhas perfeitamente paralelas
Aguardando algo
Algo que nunca vem
Ou nunca como eu gostaria
Porque me vem incompleto, difuso, débil
Olho a folha alva
De novo e outra vez
Desejoso de a preencher com coisas minhas
Palavras escritas com aquela letrinha que tento fazer bonita
Tento enchê-la de pensamentos, sensações, emoções, vontades
A caneta falha
A mão treme
A cabeça explode
Tinha inveja de um colega da escola
Aquele com a caligrafia perfeitinha
Redondinha
Com um “A” que parecia uma obra de arte
Eu não
Rascunho
Sempre
Qualquer coisa próxima do ilegível
Ainda assim insistindo
Querendo preencher páginas e mais páginas de garranchos
Com minha letrinha quase indecifrável
Os meus rabiscos
Que mais ninguém entende
Que mais ninguém pode
A não ser eu
Escrevo para mim
E, quando acabo, gosto de olhar para a página
De novo e outra vez
Rabiscada
Sentida
Minha.

“(…) O berro de Ana deve ter alcançado quem passava do outro lado da curva. Uma enfermeira a levantou do chão, e ela continuou se debatendo enquanto o pai chorava pela primeira vez. Um copo de água com açúcar chegou logo, e Ana foi se acalmando do pânico, mas não da dor. Quando o choro amainou, ouviu a voz do pai a casa vai ficar tão vazia, e a constatação a perfurou mais do que o veredicto do médico. A partir desse instante só ouvia o eco da voz frágil daquele pai que nunca chorava, a casa vai ficar tão vazia.”

Tatiana Salem Levy in “Paraíso”.